Desde o momento em que Wilson Jr. anunciou o lançamento do seu primeiro livro, uma ficção histórica situada em Portugal nos últimos dias do primeiro milênio, minha atenção foi facilmente capturada, e tratei logo de contribuir com sua campanha no Catarse, ansiando receber meu exemplar em mãos. Contudo, posso dizer que minhas expectativas foram rapidamente superadas, visto que esse é um livro muito melhor do que eu já imaginava ser, e ao mesmo tempo muito diferente do que eu imaginava.
A primeira coisa que salta aos olhos é a maestria de Wilson em descrever um cenário medieval tão vivo, palpável e imersivo, mesmo que a obra se limite a alguns poucos espaços dentro do Forte Alvares. Na verdade, essa limitação espacial acaba soando um ponto positivo, pois eleva a claustrofobia e o temor do desconhecido que o autor busca passar, criando verdadeiros momentos de suspense, tensão e tragédia.
Isso é amplificado pelo seu ótimo trabalho de construção dos protagonistas. Embora ao longo das páginas fique claro que nem todos recebem o mesmo espaço, isso não é impedimento para que todos eles sejam bem-desenvolvidos, havendo inclusive um particular cuidado em trazer uma base histórica que, no entanto, jamais sacrifica a verossimilhança da história. Em particular, aplaudo a concepção do padre Francisco, talvez um dos personagens mais odiosos que vi em muito tempo - e que fique claro que odiá-lo é justamente um mero reflexo do quão bem Wilson o escreve, trazendo à vida uma figura que ilustra os perigos do fanatismo e da hipocrisia religiosa no molde de obras que tratam de temas similares como "O Nevoeiro".
Se o final pode soar um tanto anti-climático pela forma "rápida" ou inacabada com a qual a ameaça externa ao Forte é tratada, ele se torna muito mais impactante ao mostrar que o verdadeiro perigo sempre esteve dentro das muralhas. É um final amargo e duro, mas condizente com o espírito da narrativa, que com pouco mais de 200 páginas implora para ser devorada. "999" é, portanto, um primoroso romance de estreia e um excelente exemplo da qualidade da nossa literatura nacional contemporânea.