A Crise do Mundo Moderno é o primeiro livro escrito (1927) por René Guénon voltado para o público leigo, desconhecedor da Filosofia Perene. Escreveu uma continuação: O Reino da Quantidade.
A Crise do Mundo Moderno é o primeiro livro escrito (1927) por René Guénon voltado para o público leigo, desconhecedor da Filosofia Perene. Escreveu uma continuação: O Reino da Quantidade.
René Guénon faz um corte cirúrgico e uma verdadeira autópsia na modernidade, que jaz há muito tempo. Dou 4 estrelas e meia somente porque mesmo sendo o livro mais conhecido de Guénon não é um dos melhores, sendo seus estudos metafísicos e de simbologia seu supra sumo. Porém ele traz aqui a maior crítica, ainda em 1927, ao mundo moderno e suas consequências devastadoras para o mundo, graças à sanha do Ocidente que querer predomínio e se perder em seu materialismo. Quanto mais se densifica e se coisifica a humanidade, mais múltiplo e confuso fica o mundo, correndo o risco de levar o Oriente, que ainda traz traços de Tradição, para o mesmo abismo que caminha o mundo Ocidental moderno. As críticas são para todos os campos e a raiz disso tudo não está nos nossos filósofos modernos, mas em muitos pensamentos greco-romanos, que se densificaram numa filosofia que é mais econômica do que racional. A ciência que predomina não é a que trata do ser, mas de coisas, e Guénon tem a perspicácia de ter notado já na época que a função da ciência acaba por servir quase exclusivamente para a indústria, para criar coisas que realmente não precisamos. Guénon critica o capitalismo, por este invadir o mundo todo e criar necessidade que não necessitamos, e pior, busca por massificar o humano, e só se massifica destruindo culturas e tradições. O pior que o capitalismo é a “cultura” do trabalho, onde se deve trabalhar mais, para se produzir mais, para se ter mais bugigangas que não existiam no passado, mas que hoje de repente se tornam essenciais. O comunismo não fica de fora, claro, sendo uma continuação do materialismo capitalista, só que mais densificado, e ainda pior porque a essência é trabalho. O marxismo é tão vazio e esvazia tanto o homem que sua teoria se resume numa história que se forma a partir da produção apenas. Não cita o fascismo direta, mas critica suas características, como o nacionalismo, sendo a nação um conceito que não existia no passado, logo não é tradicional, e que divide e multiplica ainda mais as manifestações humanas, além disso acaba se louvando castelos de areia, como a autoridade e a submissão do indivíduo ao Estado e à nação. As religiões também caíram na decadência do excesso de materialidade, e o exemplo mais fragrante é o espiritismo que chega ao absurdo de falar em espíritos com forma e corpo semelhante ao nosso. As igrejas protestantes são casos semelhantes, mas com culpa maior por trazerem a mentalidade individualista, onde as interpretações se multiplicam, não há autoridade central e daí surge a multiplicidade de milhares de igrejas e seitas cristãs, muitas vezes com várias dizendo a mesma coisa de formas diferentes e não se concordando entre si porque não se entendem com as outras e consigo mesmas, uma verdadeira Torre de Babel. Surge também num Ocidente decadente falsos esoterismos, com falsas iniciações, pois pretendem ter e interpretar uma tradição que não tem mais. Pior são as que enganam os outros e a si mesmas, ensinando filosofia moderna, darwinismo, evolucionismo, positivismo, kantismo, hegelianismo e até marxismo se utilizando de um vocabulário Oriental, ou seja, distorcendo filosofias milenares para caber num mostro de confusões, e a Teosofia de Blavatsky. As verdadeiras tradições esotéricas sumiram do Ocidente ou foram destruídas, e o que restou com traços tradicionais foi a Igreja Católica, que na época que Guénon estava a beira do abismo, e hoje podemos dizer que já pulou de cabeça no abismo, de braços abertos e desejando se espatifar nas profundezas obscuras. Porém ainda havia na Igreja um ritual antigo e ainda há uma história de grandes pensadores e santos, mas aí vem o ponto polêmico de Guénon, pois a Tradição Ocidental poderia ser restaurada a partir unicamente da Igreja Católica, mas teria apenas duas possibilidades para isso: 1) que o que restou de rastros de Tradição entre membros solitários ou pequenos grupos, ou então através de outros meios da Revelação restaurassem a Igrejas; 2) o Oriente teria que auxiliar essa restauração, reeducando sobre o Divino e depois deixar a Igreja caminhar com suas pernas. Certamente na época de Guénon a primeira opção já era praticamente impossível e somente a segunda era viável, mas para a tristeza de Guénon hoje a imoralidade Ocidental se espalhou por todo o Oriente e agora é o Oriente que precisa se salvar, não podendo ajudar a nos salvar. Mas nessa calamidade e cataclismo que irá nos destruir inevitavelmente Guénon traz uma esperança, pois a decadência é um processo cósmico, assim como a decadência do corpo, e a materialidade e densidade tem um limite e não há mal absoluto, nem a desordem aparente é desordem no Todo, pois as desordens estão dentro de uma ordem universal. A Tradição nunca é realmente destruída, pois existe sempre virtualmente, assim como mesmo que ninguém saiba que exista 2+2 o resultado 4 continua sempre existindo. Quando tudo se esgota, sobre os escombros da humanidade ressurge um recomeço, assim como a era obscura (Kali Yuga) é a última, é também o seu fim o recomeço de uma era da verdade (Satya Yuga). Então podemos tomar duas atitudes: esperar que isso se acabe ou incendiar o mundo para adiantar ou fim, ou então uma atitude mais platônica como na República, que em vez de ficar buscando um ideal terreno, que logicamente não existe, que cada um cuide de sua República interior. Por fim, dois pontos me espantaram com o prenúncio que Guénon fez de nossos dias, prevendo o homem se tornando máquina e também prevê que a industrialização a ciência materialista (tecnologia?) serão responsáveis pela destruição do meio ambiente, e isso significa que aí está o início do cataclisma final. Guénon é um visionário da decadência, e a densificação e massificação está em todas as estruturas, então não adianta uma reforma, mas é necessário retomar valores e retornar à forma Traciocionao, ou seja, precisamos de uma pré-forma.


