Em mais uma das minhas leituras acadêmicas e uma volta ao passado, venho mais uma vez discorrer sobre História, mais especificamente sobre História da África. A complexa movimentação de escravos e troca cultural do Oceano Atlântico entre os séculos XVI e XIX não caberiam em algumas sínteses historiográficas recentes, por isso apresento um breve resumo de Um Rio Chamado Atlântico onde a África é o tema, abordado pelo historiador Alberto da Costa e Silva se consente, que reúne textos publicados entre 1989 à 2003. O Brasil, a África como parte de um comercio Atlântico, entre os séculos XVI e XIX apresenta um fluxo e refluxo cultural, político e econômico, com representações sociais que marcam a História do Brasil e dos países africanos da costa Oeste, especialmente.
O livro se divide em quatro partes, que se distribuem os ensaios exploram com retidão aparente a metáfora do vasto oceano convertido em rio. Ao longo da primeira (Nas duas margens), o Atlântico é ainda um mar extenso, suporte de movimentos grandiosos nas intenções, configurações e efeitos o tráfico de almas e o capitalismo, o abolicionismo britânico e seu desiderato (o domínio dos fluxos mercantis de longa distância), as guerras santas e o traslado compulsório de milhares de muçulmanos para as Américas, mencionando apenas alguns.
A segunda e terceira partes (Na margem de lá e Na margem de cá) têm por cenários os litorais transformados em beiras. A estreitá-los, o enraizamento na África e no Brasil de instituições, óbvio; mas sobretudo de comunidades transoceânicas, encarnações de intensas mestiçagens culturais a dar novo significado ao espaço, ao homem, a seus deuses. A quarta e última parte do livro (De ida e volta) é composta tão somente pelo pequeno ensaio intitulado A história da África e sua importância para o Brasil.
No início de sua vida soberana como país independente, todo o esforço diplomático do Brasil concentrou-se na obtenção do reconhecimento de sua independência pelos demais Estados. Logrado esse reconhecimento, passaram a predominar nas preocupações externas do país os problemas ligados ao tráfico de escravos e à navegação comercial entre o Brasil e a África. Agora não se tratava de um diálogo direto com os reinos e as cidades-estado independentes da África, mas de um debate diplomático, logo transformado em azeda disputa, entre o Brasil e a Grã-Bretanha. Esta cedo ganharia, de fidelidade cambiante, dos governos da França, de Portugal e de outras potências europeias. A causa da discórdia era o tráfico negreiro.
Nas primeiras décadas do século XIX, passaram de um extremo ao outro os interesses econômicos da Grã-Bretanha. De grande mercadora de escravos, transformara-se em advogada ardorosa e militante da abolição do tráfico. A própria existência da escravidão começava a contrariar seus novos objetivos políticos e econômicos, ditados pelo avanço da chamada Revolução Industrial.
A colônia americana de Portugal expandira-se a partir de pequenos e coesos núcleos populacionais, formados por banidos, cristãos-novos, órfãos desamparados, nobres sem fortuna, ameríndios livres ou escravos, mestiços de indígenas e europeus. Desses núcleos, em que logo se integraram os primeiros escravos negros e onde logo surgiram os primeiros mulatos, iniciar-se-ia a penetração do interior do país. A vinda, em números crescentes, de escravaria africana propiciaria o surgimento e a prosperidade da indústria açucareira, das plantações de fumo e de algodão e das grandes lavouras de café, assim como permitiria que se expandissem a pecuária e o extrativismo mineral.
O Brasil em suas diversas fases históricas tem sofre influencia dos povos africanos, parte fundamental da formação da identidade brasileira. O Brasil é um país extraordinariamente africanizado. E só a quem não conhece a África pode escapar o quanto há de africano nos gestos, nas maneiras de ser e de viver e no sentimento estético do brasileiro. Um livro muitíssimo rico, com um cabedal de informações, referências bibliográficas e históricas sobre a dinâmica das sociedades africanas, especialmente da Costa Oeste do continente, que compõem um quadro amplo, apresentado um trabalho de alto gabarito. A importância do estudo da História da África, da interação com os movimentos políticos e sociais dos escravos no Brasil, apresenta uma crescente e faz parte de um caráter afirmativo de uma História que necessita maior destaque. Fazemos parte de uma sociedade plural, e é necessário mais iniciativas como a deste livro, de estudar nossas raízes. Um livro pra quem adora História.