Baseado em um assassinato real ocorrido na década de 1980 em Porto Alegre, "Diorama" aborda o crime não sob o prisma do assassino ou da vítima, mas da filha do acusado de tal tragédia social e íntima. Cecília, filha do deputado Raul Matzenbacher, desenha, entre idas e vindas temporais, o retrato macro e micro de um escândalo que abala não apenas sua cidade, mas sobretudo os pilares de sua família de classe média. A meu ver, um romance policial orientado menos pelo crime em si, e mais pela investigação do que havia e do resta de uma família depois que se aperta(m) gatilho(s).
Brilhantemente executada, a obra traz capítulos que se deslocam da Porto Alegre na qual vivia Cecília aos 9 anos, quando tudo ocorreu, e cidades dos Estados Unidos, país escolhido pela Cecília adulta na tentativa de começar uma nova vida ou de apenas fugir da anterior. Aliás, a geografia do romance e as ambientações são um ponto forte; não só sentimos na pele a ponte aérea Brasil-EUA e a ponte temporal BrasilPassado-BrasilPresente, como nos vemos diante de ecos do velho e bom romance policial nacional à la Rubem Fonseca, que desta vez substitui o protagonismo das ruas cariocas pelos bairros da capital gaúcha.
Sim, a meu ver, ética e estética vivem aqui um casamento perfeito, e também o título e seu derivado (a taxidermia, profissão da Cecília) têm culpa no cartório dos acertos deste livro. "Taxidermista" é o profissional que se dedica a remontar/empalhar animais; "Diorama", por sua vez, é a paisagem/cena que se cria com esses animais, em museus de História Natural, por exemplo. Ouvi em uma entrevista que a autora não é taxidermista e que inicialmente começou a pesquisar sobre essa prática por gosto pessoal, sem ter grandes intenções pro romance. Isso até que (como nós, leitoras) ela notasse que não poderia ter feito uma escolha mais acertada. As metáforas e alegorias sobre morte-vida-encenação que a profissão de Cecília traz pra narrativa são genialmente sutis e sempre interessantes. Aliás, nunca mais verei um animal empalhado da mesma forma!
Eu diria que "Diorama" é mesmo um romance de simbioses, entre o político e o íntimo, entre o histórico e o privado, entre os fatos e a geografia, entre passado e presente. Num momento em que sobram romances de prosa poética, Carol Bensimon opta por uma história sóbria, sem aforismos, focada na execução de um projeto literário desprovido de grandes adereços. Fiquei encantada com o modo como ela amarra uma narrativa sócio-histórico-política a uma narrativa de si. A narradora não adota um tom confessional, pois não precisa. Cecília se revela mesmo quando opta por calar o "eu" e focar nos outros e nos fatos. Do Brasil hiperinflacionado da década de 80-90 à "família de bem" e ao armamentismo que perduram até os dias atuais, o interior da protagonista é costurado a tudo que há a seu redor, traçando quadros sensíveis sobre infância, memórias, relações familiares, traumas. Sim, é gostoso ler uma boa prosa poética, mas há dramas e tramas que não carecem de poesia para serem brilhantes e, por sorte, "Diorama" vem nos recordar disso.
Obs. 1: A cereja do bolo é, a meu ver, o espaço que uma questão identitária, em específico, vai ganhando no desenrolar do romance, mas optei por não tratar disso na resenha porque foi muito prazeroso ir me dando conta desse elemento aos poucos, então decidi encará-lo como spoiler. Mas deixo aqui minha menção honrosa a mais esse acerto da autora!
Obs. 2: Em certa medida, este é um romance musical e a autora disse numa entrevista que montou uma playlist no Spotify pra quem tiver curiosidade em ouvir as músicas que são citadas nele.