Em uma palestra, em 1969, a economista inglesa Joan Robinson disse – explicitamente – por que devemos nos arriscar nesse emaranhado de ideologias, lobbies e sofismas que as pessoas chamam de Teoria econômica:
“O propósito de estudar economia é aprender a não ser enganado por economistas.”
Robinson é uma das economistas que trabalhou com Keynes na preparação de Teoria geral do emprego, dos juros e da moeda, o livro que fundou a macroeconomia – e teria muito mais espaço nos manuais sobre o tema se não fosse uma autora abertamente de esquerda.
Ela foi uma das primeiras a dar destaque ao papel de cartéis e oligopólios na teoria econômica e uma das autoras mais incisivas na crítica aos modelos com hipóteses simplórias sobre o comportamento humano ensinados nas faculdades.
Ano passado, a editora UNESP reeditou Filosofia econômica, um dos melhores livros de Robinson. O livro discute as ideias por trás da teoria sem usar fórmulas ou equações, o que é simplesmente impossível para os economistas contemporâneos (menos articulados que os keynesianos do século passado).
O primeiro item do primeiro capítulo do livro é “Como distinguir ideologia de ciência?”. Robinson leu a definição de método científico de Karl Popper e tem muita clareza sobre a dificuldade de refutar hipóteses fora de experiências controladas em laboratório. Ela também discute um ponto anterior: que hipóteses queremos testar?, por que queremos testar justo essas?, como escolhemos nossas perguntas?. Nesse campo, as perguntas que queremos responder já têm um viés ideológico – e quem disser que faz ciência pura está tentando enrolar o público.
“(…) os sentimentos morais não derivam da teologia nem da razão. São uma parte separada de nosso equipamento, como a capacidade de aprender a falar”, diz Robinson. Antes do para onde vamos, vale a pena perguntar o que nós somos? e por que pensamos desse jeito sobre determinado assunto?. As respostas, normalmente, estão longe de ser óbvias.
“O sistema ético implantado em cada um de nós pela nossa educação (até um rebelde é influenciado por aquilo contra o que se rebela) não derivou de nenhum princípio razoável; aqueles que tudo transmitiram para nós raramente conseguiram dar uma explicação racional do que transmitiam, nem mesmo formulá-lo explicitamente. Passaram para nós o que a sociedade lhes havia ensinado, do mesmo modo como nos transmitiram a língua que tinham aprendido a falar.”
Isso é Joan Robinson discutindo os pontos que a economia deixou de lado nas últimas décadas – quando se concentrou em modelos matemáticos pouco relacionados às pessoas que fazem a economia funcionar todos os dias. A economia não é um processo mecânico, ela tem a ver com escolhas e essas escolhas dependem de em que as pessoas acreditam e do que estão dispostas a fazer em nome disso. “Qualquer sistema econômico exige um conjunto de regras, uma ideologia que as justifique e uma consciência do indivíduo que o faça esforçar-se para cumpri-las”, diz Robinson.
Filosofia econômica foi publicado em 1962, mas poderia ter sido escrito ontem. Não é que estivesse à frente do seu tempo, é que o debate econômico nos últimos 60 anos simplesmente andou para trás: fugiu de perguntas básicas para se concentrar em fórmulas matemáticas que, em muitos casos, estavam erradas.
Está mais do que na hora de retomar os grandes temas da economia. E, talvez por isso, Robinson esteja sendo reeditada. Temos que entender o que somos – como pessoas e como sociedade – para escolher políticas menos hipócritas que as das últimas décadas. Temos que falar em concentração de renda e de patrimônio sem inventar malabarismos para continuar aumentando a concentração apesar do discurso contra ela. Esta semana mesmo, ouvi uma variante de “ninguém é a favor de concentrar renda, mas baixar os juros agora…”.
Enfim, foi bom ler uma economista de verdade. Já estava ficando entediado com os lobistas de coluna de jornal e com os autores de artigos que fazem regressões com variáveis macroeconômicas. Não devemos perdoá-los por pregar o que não acreditam ou por errar até na matemática enquanto defendem que nada mude.