Esta segunda edição de Crítica em Tempos de Violência foi revista pelo autor com base nas novas leituras sobre o tema que realizou. Jaime Ginzburg se propõe contribuir com a narrativa de uma história da literatura brasileira sob a perspectiva da violência, analisando a relação entre literatura, autoritarismo e violência. O livro parte da premissa de que a sociedade brasileira foi construída com processos que incluíram episódios de genocídios, massacres, chacinas e políticas repressoras. Através de uma perspectiva teórica que combina, entre outros, Florestan Fernandes, Paulo Sérgio Pinheiro, Theodor Adorno e Wittgenstein, Ginzburg propõe a articulação das categorias autoritarismo, violência e melancolia como referenciais para sistematizar os estudos. Os ensaios tentam colaborar para a reflexão de como a intensa presença de violência em nossa história está articulada com formas, temas, modos de produção, circulação e recepção de obras literárias.
Crítica em tempos de violência -
Jaime Ginzburg
Literatura como resistência ao Autoritarismo
“Crítica em Tempos de Violência” é a reunião de 34 artigos nascidos da tese de livre docência do professor Jaime Ginzburg. O docente discute, ao longo da obra, de que maneira a violência constitui a formação cultural das sociedades – sobretudo a brasileira – e como certas obras literárias resistiram criticamente em tempos autoritários e pós-autoritários. No caso brasileiro, Ginzburg enfoca dois períodos do século XX: o Estado Novo de Getúlio Vargas, nos anos 30 e 40, e a ditadura militar de 64. A obra se apoia na teoria adorniana da “Dialética Negativa”, que se opõe criticamente à dialética Hegeliana, e também nos textos de Walter Benjamin e George Luckács sobre estética e violência. Jaime demonstra como, em um texto da “Estética”, Hegel elege a épica clássica como um gênero literário essencialmente nacionalista ao demonstrar que Aquiles, da “Ilíada” de Homero, representa os valores da “nação” pela qual luta e que, por isso, a violência que o herói épico emprega em sua jornada é “moralmente justificada”. Em outras palavras, uma “violência legitimada” é o elemento essencialista que pauta a épica clássica. Para a “Teoria Estética” de Adorno, no entanto, a concepção de arte deve ser compreendida em sua concretização histórica, e uma arte pós Auschwitz não pode ser elaborada como uma síntese positiva, mas sempre cairá em uma dialética que não se resolve. Como o crítico de Frankfurt afirma, “escrever um poema depois de Auschwitz é um ato de barbárie”, pois não há como haver poesia contemplativa (no entendimento de uma arte pela arte, de uma arte não materialista) no século das catástrofes. A partir daí, Ginzburg elabora, com apoio dos estudos de Florestan Fernandes e Renato Janine Ribeiro, a constituição da nação brasileira. Calcado fortemente pela violência e pelo autoritarismo, o Brasil nasceu da colonização europeia e se gestou na escravidão indígena e africana. De seu “achamento” até os dias atuais, o país atravessou reformas e “revoluções” superficiais, que mantiveram sempre a mesma estrutura autoritária da elite masculina, patriarcalista e branca dominando, por meio de repressões objetivas e ideológicas, o povo brasileiro em geral. Assim, “no modo como entendo, uma interpretação da história pautada pela violência deve estar centrada na percepção dos conflitos sociais e é incompatível com a conciliação das forças históricas em uma síntese totalizante” (p. 220). Jaime analisa obras de Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Clarice Lispector e outros autores que demonstram esteticamente os conflitos sociais que se tencionam no contexto brasileiro. O professor também estuda as obras que elogiam a violência como solução para as dissidências da nação, tal qual o poema de José de Anchieta em defesa da Guerra, no século XVI, e os ensaios críticos de Plínio Salgado, fundador da Ação Integralista Brasileira no século XX. Por fim, os contos de Caio Fernando Abreu, Dalton Trevisan, Rubens Fonseca e crônicas de Luís Fernando Veríssimo, produzidos durante e após o período ditatorial, demonstram, na análise de Ginzburg, a melancolia, a dificuldade de reelaborar as experiências repressivas e os impasses que o Autoritarismo Brasileiro deixou para nós. “Crítica em Tempos de Violência” é uma obra que aguça o olhar sobre a cultura e sobre as diversas formas com as quais a violência se tornou a tônica da formação brasileira; também demonstra como uma obra artística, sob o prisma adorniano, discute, explícita ou implicitamente, os conflitos sociais inerentes à nossa sociedade.
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