O livro é uma análise do estereótipo da feminilidade e sua influência negativa na luta pela liberdade da mulher no período oitocentista, com foco na forma com que a indumentária o reproduzia, e até mesmo o facilitava e reforçava. A autora traz estudos concisos acerca da história da moda, onde a forte presença do patriarcado no vestuário feminino – sendo sua consolidação o sucesso do estilista e costureiro de haute couture Charles Worth – teria frizado ainda mais a submissão do “sexo frágil”, onde a roupa trazia a mulher como uma vitrina do poder aquisitivo do homem (objetificação feminina), atuando ainda como objeto de admiração e fetiche masculinos.
“[…] o corpo feminino desnudo não possui mais encantos do que o corpo vestido; afinal, a roupagem tem o poder de transformar-lo no corpo idealizado. É como se o corpo, separado da roupa, estivesse incompleto, inacabado.” (pág.76)
“[…] quem vestia os trajes sedutores que destacavam as nádegas eram justamente damas polidas e recatadas. Isso era uma inconfluência, pois eram antes ar o corpo de uma dama de moral e pudor tão vigiados gera um desencontro de lógica.“ (pág.85)
A pesquisa feita por Maria Alice Ximenes é completa e direta, atuando como uma excelente ferramenta de entendimento e questionamento acerca da moda como objeto de repressão, sexualização e clausura da mulher no século XIX, quando era determinado que ser dona de casa, cuidar dos filhos e se manter ociosa era o ideal. O corpo feminino era algo desejado e atraente, sendo moldado com corseletes, crinolinas e anquinhas para se encaixar no imaginário de corpo perfeito dos homens da época. Ainda, é interessante destacar que seu estudo acerca da imagem da mulher na sociedade machista e patriarcal é dividida em 3 visões: a do homem comum, indivíduo a quem deve submissão, a do homem que a reproduz com base em seu imaginário, artistas, e a do homem que redesenha essa estética com ferramentas de modelagem, o estilista e costureiro, ou seja, quem trás à realidade o que foi idealizado nas pinturas.
Foi uma leitura enriquecedora e muito informativa, sendo um meio de indagar-se e refletir sobre a moda como ferramenta sociopolítica e cultural. Também achei super interessante o grande paradoxo envolvendo o vestir-se da mulher oitocentista, onde a roupa pode tanto aprisionar o corpo quanto revelar um desejo, um ideal sobre ele.