eis aqui uma pequena lista de fatos sobre a minha leitura de “estou feliz que minha mãe morreu”: pra começar, eu obviamente amo a minha mãe e, como era esperado, consegui escandalizar ela quando o livro chegou aqui em casa; mas o que realmente é interessante, é que não sou um dos maiores entusiastas de não-ficção e muito menos adepto do “ler o que acabou de chegar em casa”, mas eu abri uma exceção para este livro que, coincidentemente se tornou o meu primeiro recebido e leitura do ano e uma grata surpresa — apesar de todos os pesares da autora.
bom, agora vamos um pouco ao enredo. provavelmente a maioria de nós, os interessados por essa leitura, deve ter crescido com icarly, brilhante victoria, sam & cat e etc muito presentes no dia a dia, talvez até sonhando em ter uma vida cheia de acontecimentos engraçados e grandiosos como as das personagens ou mesmo dos atores e atrizes; mas caramba, se prepare (!), estamos prestes a estilhaçar boa parte do nosso imaginário infantil: a vida da nossa icônica sam puckett (se ela me permite chamá-la assim ao menos uma vez nesta resenha) não era tão brilhante assim. jennette mccurdy, dona desta obra e de todas as vivências relatadas nela, passou por inúmeros traumas ao longo dos anos de interpretação, todos eles originados pelos desejos, manipulações e comportamentos abusivos de sua mãe, debra, que queria transformá-la em um produto perfeito em todos os sentidos IMpossíveis.
falando diretamente sobre a escrita de jennette, posso destacar pontos muito positivos para o seu uso em um livro autobiográfico, ela foi capaz de transcrever dezenas de passagens marcantes da sua vida com a maestria de uma romancista, passando tudo para o papel e adicionando a introspecção do seu eu da época de forma brilhante. o modo como mergulhei nas páginas chegou a ser assustador porque, ao emergir, me deparava com algo que quase me permitia esquecer: aquelas palavras estavam retratando a vida de alguém — pior, de alguém por quem eu tenho respeito, carinho e simpatia intrínsecos por ter feito parte da infância a um custo alto demais.
agora, partindo para o modo como jennette expõe as facetas mais obscuras da sua história e expressa seus sentimentos, enxergar como ela é capaz de fazer o uso de um tom mais ácido/irônico para descrever sua “raiva, indignação e ressentimento” atuais pelas situações vividas ao mesmo tempo que nos faz acreditar que sua versão de anos atrás realmente acreditava e se sentia daquela forma naquelas situações, demonstra uma habilidade e desenvolvimento emocional absurdos, o que me faz enxergar esta obra como mais do que uma biografia, e sim como um grande capítulo em um processo de cura pessoal capaz de causar grande reflexão sobre diversos temas aos seus leitores.
além de todas as situações com a mãe, que são o grande foco do livro, também é possível passear um pouco (mesmo com seu tom comedido sobre algumas) pelas relações de jennette com os colegas de cena — incluindo ariana grande e miranda cosgrove —, relacionamentos amorosos e outros trabalhos além dos que conhecemos pela nickelodeon. vale também ressaltar que essa leitura pode parecer fácil pela escrita e trabalho incríveis realizados pela autora, mas se trata de um texto extremamente sensível e cheio de emoções que podem ser pesadas para quem as consome. o texto aborda violência física, mental, sexual (eu diria) além de temas sensíveis envolvendo saúde mental, principalmente transtornos alimentares. mas, aos que se interessam por biografias ou pela vida da própria jennette e se sentem seguros para continuar, garanto, é uma leitura para se lembrar por muito tempo!