Neste romance comovente da sul-coreana Kim Hye-jin, a protagonista, uma cuidadora de idosos, é uma mulher exemplar aos olhos da sociedade. Viúva de um casamento dentro dos padrões, criou a filha para seguir as tradições — casar, formar uma família e desfrutar de uma casa própria e um bom salário — e não perturbar seus planos de aposentadoria sem sobressaltos. Mas tudo sai do eixo quando Green se assume lésbica e, sem emprego fixo ou renda para pagar o aluguel, volta para a casa da mãe com a namorada. Envolta em culpa e arrependimentos, a mãe encara a situação de modo pouco generoso, inclusive consigo mesma. E a sua rotina também não é capaz de oferecer outro repertório que não o do julgamento e da rigidez, já que passa os dias em um ambiente de trabalho insalubre, entre farelos de bolinho na boca, pernas esqueléticas dos doentes, diarreia, brotoejas, fraldas, cheiro de urina, unhas mal cortadas etc. Mesmo habituada ao sacrifício, essas imagens contrastam com a “comida aconchegante” que a namorada de Green prepara, o ambiente acadêmico que frequentam e a casa simples em que moram. Mas até onde a filha realmente se distanciou do projeto de vida que a mãe sonhou pra ela? Enquanto Green luta contra a homofobia na universidade em que atua como professora horista, a mãe entra num embate contra os métodos desumanos de administração da clínica em que trabalha. Se o choque de gerações afasta, a partilha de certos valores une as duas. Sobre minha filha é um romance profundamente honesto a respeito da intensidade dos laços de família, mas não só. Conhecida por retratar de forma compassiva o sofrimento silencioso dos oprimidos, Kim Hye-jin traça um panorama da classe média sul-coreana e evidencia a falta de mobilidade social de uma sociedade que vê seus índices de pobreza aumentando a cada dia. Nela, viver com dignidade é em si só tarefa árdua, que exige que mãe e filha superem as diferenças e o ressentimento para acolher uma à outra.
Sobre minha filha -
Kim Hye-jin
Sobre Uma Mãe
A Coreia do Sul caracteriza-se pelo rápido crescimento econômico ocorrido nas últimas décadas, com significativa redução da pobreza. Por outro fado, possui uma sociedade conservadora que estigmatiza as minorias sexuais e propaga o sexismo endêmico. Sua literatura também é bastante peculiar e vem angariando interesse ao redor do mundo, por apresentar tal conjuntura mediante um olhar majoritariamente feminino e dessa lista, Kim Hye-Jim é o mais novo nome a ganhar espaço nas estantes de nossas livrarias com o romance Sobre Minha Filha. Publicado pela Editora Fósforo e traduzido direto do coreano, ele foi o vencedor Prêmio Shin Dong-yup em 2018 e aborda um conturbado relacionamento intergeracional que é narrado por uma viúva que, jamais nomeada, se recusa a aceitar a homossexualidade da única filha, Green, esperançosa de que seja “um erro passível de ser corrigido”. A situação atinge seu clímax, quando a jovem, uma professora universitária passando por dificuldades financeiras, volta a morar na casa da mãe, trazendo consigo Rain, sua companheira há sete anos. Paralelamente, ambas enfrentam desafios pessoais, enquanto Green é uma militante LGBTQIA+, atividade que coloca em risco seu emprego e a própria segurança; a mãe é uma cuidadora de idosos em constante atrito com a direção da instituição onde trabalha cuja prioridade é reduzir ao máximo os gastos com os pacientes. Um bom exemplo é Zen, uma respeitada defensora dos direitos humanos que sofre de demência, não possui parentes nem amigos para lhe dar assistência no final da vida. Aliás, algo que, se a filha permanecer solteira, a mãe teme que possa ser o destino das duas. Em resumo, se a questão da homossexualidade divide mãe e filha, a última demanda tem a capacidade de aproximá-las. Fortes, voluntariosas e com exacerbado senso de justiça, elas são mais parecidas do que supõem e a tridimensionalidade dessas personagens, em especial, a tridimensionalidade da mãe distingue o romance. Facilmente Kim Hye-Jim poderia ter caído na armadilha de criar uma protagonista execrável, entretanto isso não ocorre. Na verdade, trata-se de uma personagem que da intransigência inicial, pouco a pouco admite rever seus valores. A questão é que mudanças efetivas não se concluem num passe de mágica e até podem ser inexequíveis. Enfim, Sobre Minha Filha é um delicado relato sobre difícil a arte da convivência em família. Recomendo. Nota: Está errado o emprego da palavra “minoridade”, menor de idade, no trecho abaixo. O correto é minoria. “Mãe, olhe pra isso aqui. Essas palavras se referem a mim. Minoridade sexual, homossexual, lésbica. Tudo isso aqui está falando de mim. Isso sou eu. É assim que as pessoas se referem a mim e impedem que eu tenha família, trabalho ou qualquer coisa. Eles não me deixam fazer nada, entendeu? E a culpa é minha? Sou eu a culpada?” (Posição 976, e-book)
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