Da Ilíada -

    Rachel Bespaloff

    Âyiné
    2022
    108 páginas
    3h 36m
    ISBN-13: 9786559980383
    Português Brasileiro

    A escrita recorre em sua função de combate; é dela que se valem os intelectuais, os sensíveis que se veem de repente cercados pela guerra. «Onde a história exibe apenas muralhas e fronteiras, a poesia descobre, para além dos conflitos, a predestinação misteriosa que faz dignos, uns dos outros, os adversários convocados a um encontro inexorável.» Privados da escrita, encontram-se no exílio. De família ucraniana e radicada em Paris, Rachel Bespaloff viveu o desenraizamento mais de uma vez. O último deles quando deixou a França rumo aos Estados Unidos, reagindo ao avanço nazista. Levava consigo o manuscrito de Da Ilíada, leitura colérica e indômita iniciada em 1939, na antessala da Segunda Guerra, da epopeia de Homero. Parte experimento intertextual, parte arqueologia da violência, seu ensaio encontra fôlego na aridez das paixões de Ílion. A indistinção entre literatura, religião e filosofia adquire em Bespaloff uma característica arrebatadora, marca da leitora em desabrigo. Da Ilíada fala a tempos e terras em que não há esperança para além da guerra. «Aquiles é belo, Heitor é belo pois a força é bela, e somente a beleza da onipotência, que se torna a onipotência da beleza, consegue do homem esse consentimento total ao seu próprio aniquilamento […]. Assim a força aparece na Ilíada, ora como a realidade suprema, ora como a ilusão suprema da existência.»

    Edições (1)

    Ver mais
    • book cover
    Resenhas (2)Ver mais
    João Paulo Gurgel de Medeiros picture
    João Paulo Gurgel de Medeiros25/09/2022Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Reflexões sobre a Ilíada e o poeta jônio.

    Da Ilíada. Rachel Bespaloff. Editora Âyiné. 2022. 108p. Quando se discute acerca de legado, é muito importante que à palavra se associe o seu correto significado. Qualquer atividade bem momentânea de sucesso materialista em nossos dias é, pelo ímpeto da paixão de alguns, atrelada a algo que se configura (ou pelo menos bem se desejaria) como a deixar uma marca, um lampejo a ser lembrado no tempo. Basta, entretanto, que lembremos de feitos de grandes personagens do passado para que percebamos o choque abissal de realidade e atestemos que poucos, muito poucos dos que estão em evidência hoje, terão seus feitos perpetuados, e, muito menos, cantados pelos coros do fogo perene. Para um cristão, é verdade, a discussão sobre herança envolve muito mais as pequenas atitudes contritas diárias e marcar pelo exemplo do que pelos ditos. Antes do Cristo se ter apresentado tal qual a sua criatura no meio delas, existiu (ou talvez não tenha existido) um poeta cego, Homero, que, muito antes da origem da Filosofia enquanto corpo científico, criou (ou compilou) cantos que exaltavam os conflitos humanos de forma pura na existência caótica do cosmos. Os feitos da batalha dos aqueus contra os defensores de Ílion são narrados em toda a sua crueza, com o sangue do agouro mas também com a nobreza da resistência, com a defesa da honra. Um leitor atento se afeiçoa muito mais à virtuosidade de Heitor do que à cólera de Aquiles, sendo que este é o tema em evidência cantado na Ilíada. Note-se, no entanto, que Homero não faz juízo de valor entre os personagens. Embebe, sim, todos com a justiça, que é dos homens, e não divina (esta não é a preocupação do poeta da Jônia): em meio à guerra, Heitor mata aqueus; Aquiles mata troianos. Algumas grandes questões da Ilíada são postas em belas reflexões pela autora, como a clara comparação entre Heitor e Aquiles, a relação de Aquiles e sua mãe, Tétis, o papel de Helena, a comédia dos deuses, até mesmo uma comparação entre a apresentação da guerra por Tolstói, em Guerra e Paz, e por Homero. No fim, faz um justo retrato do guerreiro grego que, mesmo sendo a própria fúria encarnada, é detentor da nobreza do maior dos homens (ele é um semideus, na verdade) quando atende ao pedido de um pai arrasado: Príamo, o rei de Tróia, o pai de Heitor. Este é um daqueles livros que nos faz querer memorizar os grandes poemas do passado, aqueles que realmente são imortais e sinônimos de - legado -, posto que entoam as verdades humanas. 10/10

    4 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    3.7 / 14
    • 5 estrelas36%
    • 4 estrelas29%
    • 3 estrelas14%
    • 2 estrelas21%
    • 1 estrelas0%