Murphy -

    Samuel Beckett

    Companhia das Letras
    2022
    272 páginas
    9h 4m
    ISBN-13: 9786559212293
    Português Brasileiro

    Estreia no romance do autor irlandês ganhador do Nobel, Murphy revela um Beckett cético e ironista incansável, surpreendentemente barroco, numa obra extraordinária sobre a solidão e a incomunicabilidade, a falha e a linguagem. Num quarto de pensão fuleiro, situado no subúrbio de Londres, nu e amarrado por vontade própria a uma cadeira de balanço, Murphy se esforça por fugir aos encantos do mundo exterior, aos apetites do corpo, e se refugiar nas profundezas da sua mente. Ao contrário do sol, que na abertura desta obra brilha, "sem alternativa, sobre o nada de novo", em Murphy, Samuel Beckett não apenas inova, como inscreve seu nome na tradição da alta comédia filosófica, conferindo forma pessoal ao gênero praticado por Cervantes, Rabelais, Joyce, entre outros. Arquétipo do solipsismo dos heróis beckettianos, "nascido aposentado", o protagonista sonha com um mergulho em seus abismos interiores, entregue a uma vida mental e livre de compromissos mundanos: mulheres (a noiva deixada para trás ao trocar Dublin por Londres; a namorada que insiste para que arrume um emprego), amigos (o poeta Ticklepenny; o filósofo de quem se fez discípulo; um pitagórico) e figuras inconvenientes ocasionais (o detetive contratado para localizá-lo, por exemplo). Numa narrativa em que o primor estilístico não é o menor dos prazeres – "no princípio era o trocadilho", proclama, joyceano, o romance –, Beckett corta as amarras com a convenção realista e se impõe, inventor de linguagem, desde o princípio.

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    Pedro Daldegan21/02/2015Resenhou um livro
    3 (Bom)

    "Tente algum dia, gentil folheador."

    Murphy foi uma leitura difícil. Por um lado, gostei muito do escritor conseguir despir os personagens, em frases curtas e inesperadas, de forma que eu rapidamente pescava quem eles eram e o que esperar deles. Por outro lado, me senti entediado em meio às várias referências, e ao despropósito com que alguns personagens se lançaram à procura de Murphy. Acredito que parte do meu desgosto provém da minha ignorância, e que a leitura seria muito mais prazerosa se eu compreendesse melhor algumas passagens e referências. Mas isto não quer dizer que não aprecio a obra. Em especial, o personagem principal é muito interessante. Avesso às imposições sociais, Murphy prefere ficar isolado, e busca não paz espiritual, mas algo como 'fechar os olhos e não sentir nada, somente ele e o vazio'. Para ele, realidade é aquilo que se vivencia dentro de si mesmo. Porém, é precisamente a interferência das pessoas à sua volta que o fazem sentir-se vivo, presente. Enfim, mais um livro para eu reler no futuro.

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