Antes do baile verde -

    Lygia Fagundes Telles

    Companhia das Letras
    2018
    208 páginas
    6h 56m
    ISBN-13: 9788554062132
    Português Brasileiro

    Reunião de narrativas escritas entre 1949 e 1969, Antes do baile verde é considerado por muitos críticos o livro de contos literariamente mais bem-sucedido de Lygia Fagundes Telles. As situações narradas são as mais diversas. Em "A caçada", um homem fica a tal ponto intrigado com uma velha tapeçaria encontrada num antiquário que acaba por mergulhar na cena retratada na peça, como se tivesse participado dela numa outra vida ou numa outra dimensão. Já no macabro "Venha ver o Pôr-do-Sol", um rapaz leva sua ex-namorada a um jazigo de família abandonado. Conflitos amorosos também são tema de "Apenas um Saxofone", "Um Chá bem Forte e Três Xícaras", "O Jardim Selvagem" e "As Pérolas". Mas o enfoque é sempre diverso e surpreendente. Em "O Menino", por exemplo, uma infidelidade conjugal é observada de modo oblíquo, pelos olhos de um garoto que vai ao cinema com a mãe. Mas o escopo humano e literário de Lygia não se restringe aos dramas de casais. "Natal na Barca" é uma pequena parábola, com final epifânico. "Meia-noite em Ponto em Xangai" é o balanço que uma prima-dona da ópera faz de sua vida solitária e vazia. Em "O moço do Saxofone" um motorista de caminhão hesita em ir para a cama com uma mulher casada numa pensão de beira de estrada. Em "A Janela", um louco visita um bordel dizendo que é a casa onde seu filho morreu. Com sua prosa segura e elegante, alternando com desenvoltura gêneros e vozes narrativas, a autora expõe aqui no mais alto grau sua capacidade de seduzir e emocionar o leitor.

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    Alexandre Figueiredo07/01/2022Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    A indispensável sombra das intenções

    Como fazer jus, em um espaço tão pequeno, à grandeza da literatura de Lygia Fagundes Telles? Lygia Fagundes Telles. Lygia. Fagundes. Telles. Esse nome precisa ser repetido inúmeras vezes para que as pessoas compreendam o peso que ele carrega. Compreendam que a ficção não é distração. Compreendam que ficção não é (apenas) entretenimento. Compreendam que ficção não é desperdício de tempo. Lançado em 1970, "Antes do baile verde" é, ao lado do romance "As meninas", a principal obra de Lygia. Este volume, hoje composto por 18 contos a pedido da autora, é monumental. Não há outra maneira de classificá-lo. Aliás, faltam palavras que dimensionem o tamanho do impacto das narrativas breves presentes neste livro. Lygia aborda, com lucidez espantosa, as contradições da condição humana. Amor, inveja, ciúme, horror, adultério, violência. Cada narrativa breve de "Antes do baile verde" tem a força de despertar em seus leitores as mais variadas sensações. Os sentimentos são expressos nas pequenas coisas. Eles podem estar presentes nos objetos que aparecem gradativamente para compor a narrativa em "Os objetos"; na revelação que desperta os sentimentos mais sórdidos de um irmão em "Verde lagarto amarelo"; na descoberta de um passado escondido (e teneboroso) em "Helga"; na reflexão sobre a natureza do sexo em um momento congelado no tempo de "O moço do saxofone"; em uma decisão sobre o pai moribundo antes de um bailinho de carnaval, em "Antes do baile verde"; no fantástico assombroso e absurdo de um homem sugado para a sua obsessão em "A caçada"; no tratamento indecente de um servo que pode resultar em consequências inesperadas em "Meia-noite em ponto em Xangai"; na descoberta da loucura em "A janela"; na dúvida incessante de um assassinato em "O jardim selvagem"; no diálogo intenso e sombrio numa noite de Natal em "Natal na Barca"; no desfecho inesperado de um encontro entre antigos namorados em "Venha ver o pôr-do-sol"; no jantar com gradações de humor e confissões entre amantes em "A ceia"; na simples e terrível descoberta do adultério e a consequente perda da inocência em "O menino". Não importa: a dama da literatura brasileira dá aos detalhes o grande protagonismo de suas histórias. E olha que aqui eu só coloquei os meus destaques... A autora busca, portanto, compartilhar a responsabilidade da imaginação com os leitores, tornando-os 🤬 #$%!& mplices de sua genialidade. É através da indispensável sombra das intenções, nessa zona nebulosa que nega respostas simples e prontas, que Lygia ganha seus leitores. É na cinzenta relação entre o real e o irreal que a literatura perdura. E que a leitura de "Antes do baile verde" torna-se incontornável.

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