Reflexão sobre liberdade pelo olhar de uma jovem vivendo o fim do comunismo nos Bálcãs. Este livro foi escrito ao longo do isolamento provocado pela pandemia de Covid-19. A experiência, ainda que em circunstâncias distintas, remeteu a autora ao lockdown vivido na Albânia, em 1997, em decorrência da guerra civil que sobreveio ao fim do regime socialista. Foi assim que nasceu Livre, misto de livro de memórias e teoria política que causou furor ao ser lançado no mundo de língua inglesa em 2021. Nascida na Albânia em 1979, Lea Ypi fala de seus anos de formação num país isolado pelo totalitarismo. Com humor e leveza, Ypi relembra a infância sob o regime socialista, a adoração aos líderes Enver Hoxha e Ióssif Stálin e a presença constante do Partido em todos os aspectos da vida.
Livre - Virando adulta no fim da história
Lea Ypi
A historia vista de dentro
Volta ao Mundo 3º pais Albânia Temos aqui um incrível livro de memorias onde Lea nos conta com foi nascer no Socialismo e de repente passar a viver no Capitalismo. Lea nasceu na Albânia socialista. Vendo aqui no Google, após a 2ª guerra a Albânia passou a seguir as regras da URSS, até 1961, quando cortaram relações e o país se associou a China, com a qual rompeu em 1978, tornando a Albânia uma das ditaduras mais fechadas da Europa. A ideia do governo era que a Albânia era autossuficiente. E é esta realidade que Lea traz neste livro interessantíssimo. As vezes seu pai conseguia sintonizar canais da Itália e ela via uma vida completamente diferente da sua, onde pessoas iam a supermercados e compravam diversas coisas no mesmo local, diferente de seu país, onde existia a Loja da Carne, a Loja do Pão, a Loja da Fruta, e todas com filas onde pessoas precisavam aguardar diariamente com seus tíquetes para poder adquirir produtos básicos. É até engraçado quando a autora nos apresenta as técnicas desenvolvidas pela população para guardar lugar nestas filas e até o impacto na decoração de uma casa e nas relações com antigos vizinhos trazidas por uma lata de Coca-Cola. Mas existem diversos assuntos que a menina de 10 anos não entende, como quando sua família fala sobre os cuidados a serem tomados com sua biografia ou sobre os parentes que vão se formando em faculdades sem nomes. Aos poucos Lea começa a ter um choque cultural. Na escola a professora gerada no sistema ensina que o capitalismo é coisa do diabo e religião é para os fracos. Já em casa, ela não entende porque os pais não colocam fotos do Comandante Envers (Envers Hoxha, chefe socialista do país) em sua casa e porque essa atitude não pode ser comentada com ninguém. Com a queda do muro de Berlim, o comunismo começar a ruir por toda a Europa e essa onda atinge a Albânia em 1991. De repente aquilo que aprendera na escola que era ruim e supérfluo, passa a ser lindo, maravilhoso e necessário, o que traz um grande choque para a menina. Nós que nascemos no mundo capitalista não temos noção deste impacto e o livro é perfeito em nos mostrar tudo isso. Para piorar, o capitalismo, que de repente passa a ser a salvação da lavoura, em um pais tão isolado, cria um enorme abismo social, fazendo com que grande parte da população simplesmente invada navios estrangeiros com o objetivo de fugir da pobreza. Vem ai uma nova dicotomia, pois antes aqueles que saiam da Albânia fugidos era heróis, mas agora na posição de refugiados passam a ser tratados como criminosos, principalmente em países como a Itália e Grécia, que não estavam preparados para receber o número de pessoas que começam a chegar por ali. E aqueles que ficam, sonhavam com a liberdade que lhes era tolhida pelo antigo sistema, logo percebem que aqueles que se diziam idealistas acabam se entregando para a corrupção. No fim a situação torna-se tão insuportável que termina numa Guerra Civil em 1997. Sendo assim, recomendo muito este livro. Uma pequena aula de história sobre um país que não conhecemos nada e sobre um período muito romanceado, mas pouco detalhado que é a queda do comunismo.
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