O fantástico e o cotidiano, o poético e o prosaico se entrelaçam sutilmente nos contos deste volume, selecionados pela própria autora. Neles, Lygia Fagundes Telles exerce toda a sua maestria narrativa para aproximar o leitor dos sentimentos mais íntimos de seus personagens. Os dez contos reunidos neste livro foram publicados por Lygia Fagundes Telles entre 1958 e 1981. Todos, de alguma maneira, mereceriam o título emprestado pelo primeiro deles à coletânea. São histórias de homens e mulheres, crianças e adultos flagrados em seus sentimentos mais secretos e em sua relação espinhosa com a vida à sua volta. Em "Um coração ardente", um rapaz se apaixona por uma moça sem saber que ela é prostituta e, depois, tenta regenerá-la. Em "Biruta", um menino órfão cujo único consolo e companhia é seu cão de estimação vê-se traído pela família que o adotou como uma espécie de agregado. Em "Emanuel", o amante inventado por uma moça solitária em um mecanismo de defesa contra as zombarias das amigas acaba por ganhar existência real. "As cartas", por sua vez, narra o empenho de uma mulher para proteger a correspondência comprometedora de uma amiga com um político casado. Já o entrecho de "A estrela branca" é o transplante de olhos que devolveu a um cego a visão mas não o controle sobre ela. Em "O noivo", um homem acorda no dia do seu casamento sem se lembrar quem é a noiva, e a revelação de sua identidade o chocará tanto quanto ao leitor. "O encontro" é uma fantástica viagem a vidas passadas. Com a segurança narrativa e a prosa envolvente que encantou leitores e críticos de várias gerações, a autora trafega com desenvoltura entre a descrição externa das cenas e o mergulho na vida interior dos personagens e o resultado é que saímos da leitura destas páginas com uma percepção mais compassiva e multifacetada das vicissitudes humanas.
Um coração ardente -
Lygia Fagundes Telles
A dama e o dom
Eu acredito fortemente que a literatura brasileira é, se não a melhor, uma das melhores do mundo. Na minha curta vida como leitor percebi que tinha uma grande lacuna que precisava ser corrigida: ler grandes escritoras do Brasil. Para começar a diminuir essa dívida pessoal, optei por alguém que resolveria outra falha minha, a de ser um leitor quase que exclusivamente de romances. Depois de ler a última página de "Um coração ardente" tive certeza de que a Lygia foi uma escolha precisa e abaixo explico o porquê. Antes de mais nada é preciso deixar claro que este livreto com pouco mais de 100 páginas é uma reunião de contos escolhidos pela Companhia das Letras dentro da conhecida produção da escritora, portanto é um acontecimento recente e que não foi exatamente pensado dessa maneira por ela. Feito o esclarecimento, sigamos. Para iniciantes no universo da Lygia Fagundes Telles, como foi o meu caso, este livro é brilhante, pois tem tudo o que eu já procurei a respeito dela: o famoso uso do fluxo de consciência, seu estilo próprio de narrar, avesso a certas convenções, e uma imaginação ímpar para criar ficções. Os dez contos de "Um coração ardente" abordam muitas questões. Começamos com o erudito acessível de título homônimo ao do livro, que é poético, porém não memorável. Na sequência nos deparamos com a lupa social da autora em uma história incrível contada através do olhar de crianças no conto "Dezembro no bairro". Em "O dedo", a imaginação caminha solta pela praia assim como sua personagem principal de maneira estonteante, com utilização magistral do fluxo de consciência e uso incomum de vírgulas, dando um tom surreal à narrativa. Aliás, o surrealismo é uma das características incríveis do livro e reaparece em maior ou menor grau nos inspirados "As cartas", "O noivo", "A estrela branca" e "O encontro", quatro ficções memoráveis que se aliam ao absurdo extrapolado da realidade. O olhar ácido da escritora sobre o cotidiano e a simplicidade humana aparecem com deleite único nos contos "Emanuel" e "As cerejas", textos de narrativa ágil. Por último, destaco o final acachapante de "Biruta" que, aviso aqui com antecedência, poderá arrancar lágrimas de quem for mais sensível e tem - ou teve - animais de estimação. Livro de curta extensão e gigante em produzir efeitos, "Um coração ardente" foi meu primeiro contato com a escritora e, graças a ele, dificilmente não lerei toda a obra de Lygia Fagundes Telles que, arrisco dizer, não é apenas dama da nossa literatura, mas também uma dama da imaginação.
Estatísticas
Avaliações
4.1 / 481- 5 estrelas31%
- 4 estrelas45%
- 3 estrelas21%
- 2 estrelas3%
- 1 estrelas0%


