Curioso como eu me empenhei em ter este livro - que é de 1977 - e depois o deixei na prateleira por anos. Apesar de ainda faltar um pouco - ou muito, nunca se sabe - para a minha aposentadoria, muitas vezes me pego pensando o que fazer quando ela chegar.
Quarteto no Outono é a história de dois homens (Edwin e Norman) e duas mulheres (Letty e Marcia) na faixa dos 60 anos - uns um pouco menos, uns um pouco mais - que trabalham no mesmo escritório. Todos vivem sozinhos e à exceção de Edwin, que é viúvo, tem uma filha e netos, os outros nunca se casaram.
Eles levam vidas corriqueiras e enfadonhas e não têm muita perspectiva de futuro pós-aposentadoria.
Marcia vive reclusa numa casa grande, que outrora dividia com a mãe e um gato, acumulando pó e comida em lata; sua única felicidade é ir ao médico. Letty vive com o mínimo num quarto alugado na casa de uma senhora, tem uma única amiga que mora no campo e gosta de ler. Norman é mal-humorado, pessimista e irônico e não se interessa por nada, nem em fazer algo nas férias. E Edwin é apaixonado pela igreja e tudo que se relaciona a ela: o calendário de eventos anuais, as congregações, as missas, as revistas paroquiais.
Apesar de serem todos sozinhos, de trabalharem juntos e se darem bem, nunca se veem fora do escritório. Até que, em determinado momento, as mulheres se aposentam e aquela dinâmica cotidiana se rompe.
A autora ilustra muito bem o dia a dia monótono e sem perspectiva dos quatro protagonistas. Sem muito dinheiro, sem família ou amigos por perto, a resposta à pergunta: ‘o que vão fazer quando se aposentar?’ soa estranha e acusadora. Há muito tempo livre e uma infinidade de coisas pra fazer, mas quais?
Não sem motivo, hoje as empresas investem em cursos e palestras sobre planejamento de aposentadoria: perspectivas, finanças, mudanças de rotina, de residência, atividades de lazer, diversão, até mesmo outro tipo de trabalho, voluntário ou não. E em relação aos que vivem sós, a preocupação com a assistência aumenta: quem sentirá sua falta se sumirem por uns dias? E se tiverem uma queda, precisarem de ajuda e não tiverem ninguém por perto? Ou um mal súbito?
É verdade, que por se tratar de uma narrativa dos anos 70, havia dificuldades adicionais: para falar com Marcia, por exemplo, que não tinha telefone e não queria contato social, era necessário visitá-la. Quando os homens decidem convidar suas ex-colegas para almoçar, têm que enviar-lhes convites por escrito. Também o conceito de ‘idoso’ foi se modificando com o aumento da expectativa de vida*. Talvez isso dificulte a leitura de quem já nasceu na era digital, com pais modernos, ativos e aparentemente jovens ou pareça que o que é retratado aqui não acontece mais. Porém a verdade é que o sentimento de solidão e inadequação na velhice não é muito diferente hoje, especialmente para os solitários.
Quarteto no Outono é uma narrativa sensível, melancólica e honesta sobre solidão e envelhecimento. ‘... e a possibilidade remota, mas sempre presente, de que alguma coisa boa possa acontecer, no final das contas’.
*A expectativa de vida aumentou mais de dez anos desde 1970 nos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), atingindo 80 anos e meio, em média, em 2013. Segundo relatório da organização (...), persistem, no entanto, diferenças importantes entre os países.
Fonte: Agência Brasil (EBC).
P.S.: Não posso deixar de registrar meu incômodo e vergonha sobre como os brancos se referem aos negros em certas passagens neste livro. Eu me lembro bem de ouvir comentários semelhantes nesta época. Infelizmente, até hoje, mas de forma infinitamente menor. Pena que não por consciência, mas porque é crime.