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    Toda cicatriz desaparece -

    Rogério Pereira

    Maralto
    2022
    208 páginas
    6h 56m
    ISBN-13: 9786557982549
    Português Brasileiro
    3.8
    15 avaliações
    Leram22Lendo4Querem9Relendo0Abandonos1Resenhas4
    Favoritos0Desejados9Avaliaram15

    Toda cicatriz desaparece reúne quarenta textos de Rogério Pereira, selecionados pelo escritor Luiz Ruffato, que têm como tema a infância. O pai bêbado e violento, a mãe doente e amargurada, a irmã morta muito jovem, a pobreza, a lembrança das avós e de antigos colegas de escola compõem as histórias contadas e recontadas pelo adulto impregnado pelo menino magrela e daltônico. Uma bola de plástico, um guarda-chuva velho e banhos em chuveiros improvisados com latas de tinta, assim como outros elementos recorrentes nas narrativas, estruturam uma infância indelével na vida do escritor adulto.

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    SAMUEL MEDINA DO NASCIMENTO picture
    SAMUEL MEDINA DO NASCIMENTO19/12/2023Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Pequenos pecados e grandes tragédias

    Há pessoas que, desde que nasceram, enfrentam as mais diversas dificuldades. Fome, pobreza, doença. E tais dificuldades parecem moldar, definir as vidas dessas pessoas. Principalmente se essas tragédias aconteceram durante a juventude. "Toda cicatriz desaparece", livro de crônicas autobiográficas de Rogério Pereira, nos apresenta alguém marcado pela vida. Fome, miséria, alcoolismo, trabalho infantil, essas são algumas das tragédias que acompanham o cronista, que carrega o ar de quem foi marcado profundamente por elas. Melancolia é pouco para tentar definir o tom do livro. As crônicas são pungentes, agudas, doem aos olhos e nos comovem. Rogério aparece como um náufrago, arrastando consigo seus fantasmas e memórias de pequenos pecados inconfessos. Destes pecados o mais destacado talvez seja o de furto. Um ladrão de comida. O de matador de passarinhos vem em segundo lugar. Em seguida, outros pecados aparecem, sempre apresentados num tom que passeia entre o desafio e a resignação. Apesar das crônicas abarcarem o tempo cronológico da infância e da juventude, com uns lampejos da fase madura, não há uma sequência temporal. Ao invés de uma linha reta, nós nos deparamos com uma espiral, onde memórias dolorosas são revisitadas à exaustão. Assim, somos convidados a conhecer o inferno particular de Rogério Pereira, com suas dores e fugidias delícias. De todas as tragédias pessoais abordadas no livro, talvez a mais referenciada seja a súbita morte da irmã, aos 27 anos. Uma morte abrupta e sem sentido. A forme que acossava a família é outra tragédia dissecada pela pena do autor. Há outras mais, como o vício do pai no álcool, que seguiu o autor como um atavismo, bem como as ameaças e surras que o pai dava na mãe e nos filhos. Ninguém escapa da crueldade do pai. Nem a cachorra Princesa, que foi levada para ser abandonada em um bairro distante. Os dois meninos, levados para acompanhar a operação, podiam, inclusive, imaginar o perigo de sofrerem fim semelhante. Nesse livro, toda a beleza é desconstruída, seja pela fome que se torna uma urgência, seja pelo piolho passeando livremente pela orelha da amada. As fealdades, porém, são destacadas, também pela fome, pela situação indigna dos personagens, na doença personificada pelo câncer, que tudo corrói. Não há lugar para otimismos. Mesmo momentos de vitória, como a leitura de uma crônica em Frankfurt, se torna episódio de melancolia e da constatação de uma derrota pessoal, íntima e intransferível. Todos os mortos são vasculhados, dissecados e expostos. Seja a mãe, com sua boca sem dentes e o furo da traqueostomia, seja a irmã, com seu silêncio, seu corpo franzino e as surras que levava. Até alguns colegas mortos são evocados, através das travessuras provocadas pela forme e escassez, ou também pelos sonhos compartilhados em comum, de alcançar o estrelato em algum campo de futebol. E por falar em sonhos, eles aparecem justamente para serem destroçados. Numa escrita poética e profundamente visceral, as crônicas nos falam desses sonhos frustrados numa narrativa que nos envolve e comove. Com um emaranhado de memórias, uma narrativa de uma escrita primorosa, "Toda cicatriz desaparece" é um mergulho em lembranças dolorosas, escritas com apuro, uma jornada íntima ao passado de um homem que, a despeito de suas conquistas, nunca deixou de sentir cada uma de suas dores.

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    3.8 / 15
    • 5 estrelas27%
    • 4 estrelas20%
    • 3 estrelas40%
    • 2 estrelas13%
    • 1 estrelas0%
    Rogério Pereira profile picture

    Rogério Pereira

    Rogério Pereira é escritor, jornalista, editor e fundador do Jornal Rascunho. Rogério Pereira, nasceu em Galvão, Santa Catarina e vive em Curitiba. Diretor da Biblioteca Pública do Estado do Paraná de motoboy, do jornal Gazeta Mercantil, ao longo do tempo passou a ser jornalista, chegou a ser chefe da redação do Gazeta do Povo, e foi parar na Espanha. É autor do livro "Na escuridão, amanhã", publicado pela editora Cosac Naify, em 2013.

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    Santa Catarina, Brasil

    Rogério Pereira