Cheguei a "Os pescadores" (1923) porque um breve trecho dele inspirou "A visão das plantas" (2019), de Djaimilia Pereira. Gosto muito da autora (a conheci através do "Luanda, Lisboa, Paraíso" [2018], que também recomendo!) e não resisti a seus repetidos elogios à escrita de Brandão. Foi em "Os pescadores" que ela conheceu aquele que seria o seu futuro protagonista, o capitão Celestino. Um homem detestável, mas com uma relação muito sensível com o seu jardim. De fato, não consigo pensar em receita literária melhor do que a mistura das trevas de um passado condenável em navios negreiros com a calmaria da dedicação silenciosa às plantas. Ah, como gosto da Djaimilia Pereira!
Essa escritora por mim admirada foi mesmo muito perspicaz ao se debruçar sobre um excerto tão breve do livro de Raul Brandão. "Os pescadores" (um tipo de cartografia luso-pesqueira do início do século XX) reúne notas de diários e crônicas sobre a pesca em Portugal e Celestino não ocupa mais do que meia página. O autor era filho e neto de pescadores, e, apesar de não ter seguido a profissão da família, conseguiu registrar o universo lusitano da pescaria com maestria!
A meu ver, as descrições do nascer e o pôr do sol, assim como da partida e da chegada dos trabalhadores do mar, são o ponto alto das habilidades literárias de Brandão (fico devendo um excerto ilustrativo porque li o exemplar de uma biblioteca e percebi que só fotografei para recordação passagens que descrevem mais os peixes do que as paisagens e as pessoas! rs). Não nego que a leitura foi monótona em muitos momentos (há uma variedade de termos técnicos e descrições geográficas), mas paradoxalmente não foi difícil seguir até a última página. Nunca imaginei passear por Portugal através das particularidades da pesca em suas diferentes regiões. E também gostei de somar à minha cultura geral um pouco sobre espécies marítimas, sobre modos e ferramentas dessa atividade etc. (eu não imaginava que capturar um atum quase que equivale aos esforços de abater um porco, por exemplo!). Mas as partes que focam nas sardinhas e nas mulheres foram de certeza as minhas favoritas. Sobre esta última, foi fascinante descobrir, como reitera Brandão, que a atividade pós-pesca executada por mãos femininas eram, ao menos na época, muito mais extenuantes do que a dos próprios pescadores (gostei, mas também achei que o autor às vezes escorrega numa animalização nessas descrições). Já em relação às sardinhas, meu interesse veio do lugar que esse peixe ocupa na cultura do país. Separei um trecho sobre isso:
"O cardume [de sardinhas], que foi força e vida misteriosa, que formou um só corpo e passou obedecendo não sei a que instinto ou a que inteligência superior, cai sobre Lisboa - como vem de Setúbal, do Algarve e das praias ignoradas de toda a costa lusitana, das grandes armações e dos pequenos barcos. É espalhada pelo país. Comem-na assada na brasa os trabalhadores de estrado e os homens esfaimados do campo com um pedaço seco de broa. De inverno é seca, mas pelo S. João pinga no pão. No norte o lavrador espera-a para o jantar: é seu melhor conduto".
Recomendo o livro de Raul Brandão a pessoas com curiosidade alargada, porque ele pode ser cansativo em algumas passagens. No meu caso, o fato de já ter pedalado por grande parte das regiões costeiras de "Os pescadores" aumentou a minha motivação e favoreceu a minha imaginação. Essa obra pode funcionar também como um livro (sofisticado) de turismo, por que não? No meu histórico de leitura no Skoob eu fiz um comentário que vale ser recuperado aqui: em "Levantado do chão" (1980), e também em suas crônicas (ora nas mais literárias, ora nas de viagem), Saramago me mostrou Portugal a partir dos trabalhadores do campo. Pois entre as colheitas deste e as pescas daquele, sinto como se tivesse feito um mochilão pelas paisagens humanas da terrinha!
Como vocês podem perceber, há muito mais mar português para além das lágrimas salgadas de Fernando Pessoa. E eu que já tinha sido seduzida pelo mar do Norte dos poemas da Sophia de Mello Breyner, agora também conheço as águas que sopraram brisas de fim de tarde no belo livro de Djaimilia Pereira.
Obs.: agora eu tenho (novamente) um blog e lá eu fiz uma resenha expandida deste livro! :)