The Darkroom of Damocles, o livro holandês que inspirou John Le Carré na criação de seu maior sucesso, O Espião que Saiu do Frio.
E foi justamente essa inspiração, admitida por Le Carré à época, que atraiu a minha curiosidade. Provavelmente, eu jamais teria descoberto essa obra de outro maneira. Afinal, seu autor, Willem Frederik Hermas, era um escritor holandês que jamais frequentou o círculo internacional dos grandes nomes do do suspense.
Até porque, posso afirmar após a leitura do livro, ele não escrevia exatamente suspenses.
Willem Frederik Hermans é considerado um dos três maiores escritores de língua holandesa, mas sua obra transita no campo psicológico niilista.
Como viveu a Segunda Guerra na Holanda ocupada, esse tema o dominou por algum tempo. Hermans, porém, está longe de ser um autor de espionagem.
Este livro tem a atuação clandestina da Resistência holandesa no pano de fundo e foi um grande sucesso de público na Holanda por ocasião de seu lançamento, em 1958. Em 1963, Hermans acusaria Le Carré de plagiá-lo em O Espião que Saiu do Frio.
Mais adiante voltaremos a essa questão. Antes, porém, vamos conhecer um pouco mais sobre a trama.
A trama
A história começa em 1933. Henri Osewoudt tem 12 anos de idade quando o pai é assassinado pela mãe num surto psicótico. A mãe é internada para tratamento psiquiátrico e Osewoudt é obrigado a mudar da pequena cidade de Voorschoten, onde vivia, para Amsterdã, onde vai morar com um tio.
Lá ele é iniciado sexualmente pela prima, 7 anos mais vellha. Ao completar 18 anos, ele se casa com ela e os dois voltam para Vooschoten, onde Osewoudt retoma a tabacaria que pertencia ao pai. A mãe, libertada do sanatório onde cumpriu sua pena em tratamento, vai viver com eles.
Quando a Alemanha invade a Holanda, Osewoudt se apresenta ao exército, mas é recusado por ser meio centímetro mais baixo do que altura mínima exigida. Alguns dias depois, ele é supreendido pela entrada em sua tabacaria de um tenente do exército holandês chamado Dorbeck, que é um sósia dele. Dorbeck está a caminho do front para combater os alemães e deixa com Osewoudt um rolo de filme fotográfico para revelação.
Quando a Holanda capitula, Dorbeck passa para a clandestinidade. A partir daí, ele começará, aos poucos, a recrutar Osewoudt para pequenos trabalhos para a Resistência que acabarão por transformar completamente a vida do jovem dono da tabacaria.
A protagonista
A história é contada pelo narrador onisciente, mas ele nos apresenta o mundo pelo ponto de vista da protagonista. Osewoudt tem uma necessidade de autoafirmação de sua masculinidade, especialmente depois que ele não desenvolve características masculinas do amadurecimento, como a voz mais grossa e o surgimento de pelos no rosto.
Suas feições de menino, aliadas à baixa estatura, o colocam numa situação de inferioridade. Pelo menos aos olhos dele próprio. Isso ajuda na transformação de Dorbeck, que tem os sinais do amadurecimento, num exemplo a ser imolado por ele. Os dois são idênticos, a não ser pela barba e pela cor dos cabelos Osewoudt é loiro, seu sósia tem cabelos pretos.
Osewoudt passa a ser atormentado pela imagem desse duplo, a quem idolatra como o herói que ele gostaria de ser. Ao mesmo tempo em que começa a assumir missões cada vez mais perigosas para provar seu valor, ele muitas vezes é confundido com Dorbeck e vice-versa.
Essa obsessão em relação ao herói idolatrado vai ganhando contornos paranóicos. Dorbeck desaparece por longos períodos, o que só aumenta a ansiedade de Osewoudt, que parece se debater no desencontro entre a ideia que faz de si próprio e a ideia que os outros fazem dele. Ele se acha infinitamente mais limitado e inferior do que as opiniões externas o enxergam.
Osewoudt vai se tornando cada vez mais solitário nas interpretações equivocadas que faz da realidae à sua volta. Ele fracassa no abismo entre o que o mundo é, de fato, e a representação que faz dele.
Damocles e a sala escura
Aqui cabe um parêntesis para fazer uma explicação do título do livro. Especialmente porque nos dias de hoje, em tempos de fotos digitais, creio que muitas pessoas nem saibam o que é uma sala escura. Antigamente, porém, as fotografias eram captadas em rolos de filme e a sala escura era o lugar onde se fazia o processo de reveleção e ampliação das fotografias para o papel.
Ela surge no título porque, logo no início do livro, Osewoudt recebe de Dorbeck, um rolo de filme fotográfico para revelação. A tabacaria de Osewoudt oferecia esse serviço no início da guerra, por isso Dorbeck entrega o filme a ele.
Ao revelar o filme, Osewoudt acaba velando por acidente a única foto em que Dorbeck aparecia, o que vai acabar sendo um problema no futuro, mas não vou entrar nesse detalhe para não dar spoilers.
As fotos ampliadas a partir desse filme vão acabar sendo usadas como senhas de identificação entre agentes da resistência enviados supostamente por Dorbeck ao encontro de Osewoudt.
Quanto a Damocles, trata-se de uma referência ao personagem de mesmo nome citado pela anedota moral do filósofo romano Cícero. No conto, Damocles era um cortesão do tirano Dionísio, em Siracusa. Ele invejava o grande poder de seu rei, a quem classificava como extremamente afortunado. Dionísio, então, propõem a Damocles que assuma o lugar dele por um dia, a fim de que experimente os prazeres proporcionados pelo poder.
Damocles aceita, mas Dionísio manda que pendurem sobre o trono uma espada afiada, suspensa apenas por um fio de rabo de cavalo. Apesar de servido da melhor comida e bebida pelas mulheres mais belas da corte, Damocles experimenta a aflição de estar sob a lâmina da espada e perde todo o interessse pelos prazeres do poder.
Trata-se de uma referência direta ao desejo de Osewoudt de ser como Dorbeck, sem entender os riscos que aquela aparente glória heróica oferecem a quem tenta conquistá-la.
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