O que é meu -

    José Henrique Bortoluci

    Fósforo Editora
    2023
    144 páginas
    4h 48m
    ISBN-13: 9786584568389
    Português Brasileiro

    Neste ensaio biográfico de rara sensibilidade, que já teve os direitos vendidos para dez editoras estrangeiras, o sociólogo e professor José Henrique Bortoluci parte de entrevistas realizadas com seu pai, que durante cinquenta anos foi motorista de caminhão, para retraçar a história recente do país e da própria família. Por meio de uma prosa elegante e afetuosa ― que combina depoimentos e anedotas do pai e seus colegas com referências literárias e reflexões sobre o Brasil ―, capítulos marcantes de nosso passado e de nosso presente se revelam pelos olhos de um cidadão comum, que vivenciou a ditadura militar e seus delírios megalomaníacos, como a construção da Rodovia Transamazônica e as marcas violentas da chegada do suposto “progresso” ao interior do país. Bortoluci tem consciência de que a matéria-prima de sua escrita é composta por camadas, mediada pela memória, pela subjetividade de quem narra, pelo tempo. Mas essa impureza da matéria é justamente a chave para a concisão deste texto que, por nunca falar de uma coisa só, se desdobra em registros e territórios pouco explorados em nossa literatura. A devastação que assola o país também permite que o autor se aproxime de outro assunto doloroso: o câncer que acomete seu pai e o tratamento médico pelo qual ele passa durante a escrita do livro. As marcas no corpo do paciente são também as estradas que cortam o país, cicatrizes de um projeto desenvolvimentista que até hoje perdura em nosso imaginário político. A distância que ele percorre com o caminhão também é aquela que foi se abrindo entre seu destino e o do filho, hoje professor universitário. Além de um feito literário e uma valiosa reflexão histórica e sociológica do país, este livro é também uma tentativa comovente e exitosa de unir novamente os dois caminhos.

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    Felipe Cemin15/10/2023Resenhou um livro
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    Narrar a vida de um homem branco comum, caminhoneiro, neto de imigrantes italianos, e frágil de saúde, é também narrar a história de um país, pelo ponto de vista de um grupo específico dentre aqueles que o construíram braçalmente. A impossibilidade de dissociar história pessoal e nacional, o tom de memória-registro do livro e as reflexões de mudança de classe social nos lembram, de alguma forma, os relatos de Annie Ernaux, só que particular à periferia do capital. Há, porém, citações literárias demais (ponto fraco), que se contrapõem aos relatos em primeira pessoa do pai do autor, como nos capítulos Nestor, Manelão e Jaques (destaque). Essas histórias colocam em evidência as vivências de pessoas transparentes às elites intelectuais, mas também um Brasil ignorado e sem leis ou normas. São histórias à partir de um discurso: "Meu patrimônio são as palavras do meu pai", termina José.

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