“Despertamos para continuar a dormir.” Apesar de parecer um paradoxo, essa tese é a consequência necessária e radical da teoria psicanalítica dos sonhos. Se o sonho é realização de desejo, por que acordamos no meio da noite, muitas vezes assustados, desconcertados, diante da irrupção de nossos desejos? O que neles pode ser tão revelador, tão insuportável que nos faz despertar? Despertar para quê? Para a realidade? Qual realidade? Levando em consideração os limites incertos entre o sonho e a vigília, podemos dizer que “a realidade é um sonho” e que despertamos justamente para escapar do real insuportável de quando sonhamos. Na clínica, não é a realidade que nos desperta, já que a realidade é acessada pela tela da fantasia que a enquadra. O que nos desperta é a palavra. Essa é uma das teses que Carolina Koretzky demonstra neste livro. Analisando os diversos obstáculos aparentes ou definitivos à teoria do sonho como realização de desejo, a autora estuda diferentes modalidades de relação entre o sonho e o despertar; estuda a angústia e o trauma. O que Koretzky constrói serve como orientação, ao mesmo tempo, para a clínica contemporânea e para a leitura de fenômenos históricos de nossa vida social, como os sonhos da pandemia e os sonhos de campo de concentração. A teoria psicanalítica dos sonhos ganha com este livro o suplemento necessário para uma psicanálise no século XXI.
O despertar: Dormir, sonhar, acordar talvez -
Carolina Koretzky
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Ver maisO Despertar: Dormir, Sonhar, Acordar Talvez - uma elucidação psicanalítica (Carolina Koretzk). Melhores trechos: "...Em 1932, Freud afirma que há, na psicose, duas maneiras de se afastar da realidade: ou o recalcado inconsciente é demasiadamente forte, a ponto de destruir a conexão do sujeito com a realidade, ou a realidade é de tal forma insuportável que, num ato de revolta, o eu [moi] ameaçado se refugia totalmente no inconsciente pulsional. Por outro lado, 'a inofensiva psicose onírica' é o resultado de uma retirada consciente, desejada e temporária da realidade... Todo seu esforço consiste em permanecer lúcido no próprio cerne da loucura, a fim de resistir a algo profundamente destrutivo. Esse trabalho de escrita reponde, antes, a um esforço para se ancorar no mundo real, para não ser completamente absorvido pela loucura... O sinal de alarme é uma função do eu que alerta e prepara o psiquismo para a chegada de um perigo. Assim, o que foi vivido passivamente no traumatismo (situação de desamparo) é agora repetido de maneira ativa (situação de perigo). Freud indica nesse texto a diferença e a relação entre o perigo real, ligado a um perigo conhecido, e a angústia neurótica, ligada a um perigo pulsional e desconhecido. O perigo real ameaça a partir de um objeto externo, mas, na medida em que 'uma exigência pulsional é algo real', a angústia neurótica tem fundamento real... Freud, em 1900, já aconselhava a separar o desenvolvimento de afetos no sonho do resto do seu conteúdo. Ele cita Stricker: o sonho não é feito unicamente de ilusões; por exemplo, 'se eu temer ladrões num sonho, os ladrões, é verdade, são imaginários mas o temor é real'. O encontro com uma forma não é uma razão suficiente para produzir angústia em um sonho, outras condições devem aí se acrescentar... A fantasia não é uma formação do inconsciente, mas uma matriz que faz o enquadre da realidade ligando um sujeito marcado pela divisão significante a um objeto mais-de-gozar de onde o sujeito extrai uma satisfação sexual. É nesse sentido que o enunciado freudiano segundo o qual o sonho protege o sono é uma verdade, porém parcial, visto que se sonha acordado na fantasia... Psicanálise que está começando: Consciente // Inconsciente (revelações, retornos do recalcado Psicanálise que dura: Inconsciente (saber // Gozo (sem revelações)..."
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