Finalizei a noveleta "Vapornella e a diva louca de Yucatan", em versão Kindle.
Segunda aventura da personagem, desta vez, somos trazidos ao México do período vitoriano steampunk deste universo, tendo a oportunidade de um vislumbre do que seria o além mar (do ponto de vista Europeu), fora do eixo Europa - EUA, onde, creio, seria mais natural ocorrerem histórias do gênero.
Ainda que, no contexto brasileiro, tenhamos algumas obras interessantes, (geralmente coletâneas), originalmente lançadas por editoras como a (extinta) Tarja, Draco, entre outras. De forma que nosso orgulho passado alternativo não está totalmente esquecido.
É a primeira vez que tenho a oportunidade de conhecer um ponto de vista "hispano-americano-nativo" do Steampunk e acredito que o autor acertou a mão na apresentação.
Sem grandes panoramas exagerados em que se gasta tempo (texto) em descrições detalhadas e amplas que pouco ou nada contribuem com a história e que, até mesmo levando em conta as características do México na época e de hoje poderiam parecer fora de proporção.
Não se aprofunda muito o que seria o "extraordinário universo steampunk mexicano", apenas se localiza o país de forma funcional, com elementos do gênero em equilíbrio com suas características "estancieiras" e o conhecido amálgama cultural hispano-nativo com as referências às antigas civilizações locais (maias e astecas).
A história é basicamente uma visita à região, um ponto de parada exótico dentro das aventuras da personagem, mas que trata o país e povo visitado com respeito e educação, se desenvolvendo bem no ambiente, sem a arrogância do olhar externo, que comumente vemos em filmes de ação em franquias de Velozes e Furiosos a Missão Impossível, em que além de tomadas de cena "ufanistas" com pontos turísticos relevantes e representativos, no máximo, temos alguma caricatura cultural ou social jogada de forma artificial.
Na noveleta, de forma equilibrada, tanto aspectos que se diriam favoráveis, quanto negativos, da sociedade mexicana são apresentados com naturalidade de forma fluída à história, sem eliminar todo o potencial de histórias que uma nação do tamanho do México pode conter e sem a artificialidade de tentar enfiar goela baixo do público todo um universo paralelo.
Acredito que na segunda história o autor acertou melhor a mão no que se refere ao "steamfuck" da obra, com insinuações, nuances e abordagens menos explícitas e, portanto, a meu ver, mais significativas. Sem perder o despeito do humor pretendido ao mesmo tempo que preservou a história de ficar caricata a um nível de não-retorno no aspecto da suspensão de realidade.
O enredo, mais rápido, para alguns poderia pecar pelo menor nível de 'fan service', sem citações a personagens tradicionais do universo da literatura vitoriana (efetivamente envolvidos com a história), mas isso não me incomodou nem um pouco. Acredito que na ausência de um personagem mexicano de relevância, fez bem o autor a se focar na história, por mais que ilustrada por famosos desconhecidos.
Outro ponto alto, sem spoilers, fica por uma abordagem de elementos científicos interessantes (apresentados de forma didática) sobre tópicos como metalurgia e química de metais raros, e como isso se amarra bem ao plot twist final, que na mesma medida que foi inesperado para uma obra do gênero steampunk, também poderíamos dizer que ajudou a localizar a história num universo mais amplo da ficção científica.
As histórias de Vapornella, claramente, não terminam aqui e irão se estender ainda por mais países, talvez continentes, alcançado e recorrendo a mais personagens tradicionais do gênero.
Acredito que, por hora, essa tenha sido a melhor história dessa heroína diferenciada, com aquele ar de capítulo se seriado mais leve e "fora do set de filmagens convencional", como o amado "Férias em Acapulco", do seriado Chaves.
Vale a leitura e o autor está de parabéns.