Ambientado na Inglaterra de 1848, Prosérpina é uma romantasia bem escrita, inteligente e repleta de personagens carismáticos onde Theo, um colorista órfão que herdou sua pequena loja, vive uma vida pacata e com uma rotina acertada.
Sem dramas, sem ação, sem surpresas Theo Jansen é um forte. Nada o atinge, mas também não permite a entrada de nada nem ninguém em sua vida. Romance? Amor? Magia? Tudo completamente inimaginável e distante para ele.
Quando Pasha, seu amigo féerico, pede que ele analise um quadro intitulado Prosérpina, Theo aceita fazer o favor. Apesar da magia sempre estar nos limites de sua vida, ele reluta em reconhecê-la. É algo que, para Theo, não parece fazer sentido com a própria realidade. Prosérpina, no entanto, parece ser uma pintura bem
peculiar. E, independente de Theo querer manter a magia e o romance longe de sua vida, ambas as coisas parecem correr em direção a ele.
"Ele olhou de novo: era impressão ou a expressão no rosto da modelo tinha mudado? Aquele olhar de surpresa não estava ali antes."
Eu amei muito essa história e a escrita da Anna, fiquei completamente encantada em como o texto é redondo, fluído e autoral em como os personagens são marcantes, bem esboçados. Os detalhes amarrados, como o fato de que Theo é um colorista e possui sinestesia, demarcando emoções com cores.
Outro fator incrível é o fato de que Prosérpina é nossa principal condutora narrativa. Ela não só dá nome ao romance, como também conduz o desenvolvimento de Theo. Prosérpina é divertida, livre, cheia de pensamentos e
mulher. Mulher, em uma época onde mulheres não deveriam ter opiniões, livre-arbítrio e vontades.
"Magia não lhe dava medo, porque magia era como amor: coisa que acontecia com os outros e nunca com ele."
Então, para Prosérpina que era algo mágico, fugindo não só de dentro do quadro no qual foi pintada, mas também de alguém, é impossível não projetar a história de Prosérpina na história das mulheres: sempre santas ou loucas, nunca um meio-termo.
É incrível ver a desenvoltura de Prosérpina quando ela finalmente escapa do quadro e de como começa a revirar a vida de Theo, empurrando-o mais e mais para fora da zona de segurança que ele construiu ao redor de si mesmo, na falsa esperança de que se ignorasse o amor e a magia, essas coisas também iriam o ignorar.
" Mas claro que não! Não sou feita de tinta. Quer ver? Ato contínuo, Prosérpina o agarrou pelo pescoço e o beijou com tanto ímpeto que Theo ficou sem fôlego."
Outro ponto que eu amei dentro de Prosérpina é como Martino toca na questão da arte e artista. Theo é um colorista, Prosérpina é produto de um artista, mas nós também temos o personagem Dante Gabriel Rossetti, que foi uma pessoa real.
Pintor e poeta pré-rafaelita, o inglês tem uma tela chamada Prosérpina, o que eu achei divertido demais nas minhas pesquisas pós-leitura. Anna Martino consegue costurar história, magia, romance e referências sobre arte de um jeito único, sutil e bem pensado.
" A graça de sempre: o resultado e não a execução. O destino e não a jornada. A fama e a fortuna, e não o suor e os calos e as dores nas costas. Tem quem prefira a glória sem precisar se esfalfar por ela.
Atalho é para trânsito, não para arte."
Prospérina é um docinho mágico, uma leitura rápida e bem executada. Perfeita para os fãs de romantasia que amam a dinâmica grumpy x sunshine, protagonistas femininas determinadas e referências aos mitos gregos.