Há algumas semanas escutei o episódio #346 do Lado B do Rio, no qual o antropólogo Orlando Calheiros falava, dentre outros temas, sobre como as fake news vão dominando a rede e moldando o pensamento das pessoas. Ao abordar o tema, Calheiros afirma que muitas vezes a distorção da informação é sutil, não precisando ser algo mirabolante. Em outras palavras, a partir de um fato, altera-se um ou outro detalhe e isso é o suficiente para corromper toda uma informação e manipular a opinião pública. Lembrei dessa declaração durante a leitura da trilogia "Memória do Fogo", recordando o famoso "arrependimento" do autor, Eduardo Galeano, em relação ao seu livro As veias abertas da América Latina. De fato, Galeano afirma que por não ter a formação e a maturidade necessária para o que o livro se propunha, tinha problemas com a sua escrita. Mas, a contradição do "suposto" arrependimento é que, basicamente tudo o que ele diz em As veias abertas da América Latina se repete em praticamente toda a sua obra, com um texto menos acadêmico e menos jornalístico, sim, porém, mais "poético", se é possível dizer que uma obra que trata - em muito - dos males do colonialismo e do imperialismo pode ser classificada assim.
Esse é o caso da trilogia Memória do Fogo, composta pelos títulos "Os nascimentos" (que discorre sobre os séculos XVI e XVII), "As caras e as máscaras" (sobre os séculos XVII e XIX) e "O século do vento" (sobre o século XX).
Lendo Galeano eu sempre tenho a sensação de estar em uma mesa de bar, tomando uma cerveja e ouvindo histórias de alguém muito sábio. É assim que ele relata, através de suas crônicas, as mazelas às quais foi submetida a América Latina a partir do período colonial, a crueza do imperialismo e o horror das ditaduras militares financiadas pelos EUA, mas também a imponência das civilizações dessa região do planeta, a força e a diversidade de sua cultura, e a sua incansável tendência a resistir aos processos de opressão.
Talvez por conta do maior distanciamento histórico, a leitura dos dois primeiros livros é menos fluída, uma vez que é recorrente a conferência das notas e referências. Nesse sentido, tive muito mais facilidade com o terceiro livro, talvez por estar mais familiarizado com os acontecimentos relatados. Galeano sempre oferece, a sua maneira, "um ode" a importância da História e do bom jornalismo.