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    Olhos azuis, cabelos pretos & A puta da costa normanda -

    Marguerite Duras

    Relicário
    2023
    172 páginas
    5h 44m
    ISBN-13: 9786589889687
    Português Brasileiro
    4.3
    21 avaliações
    Leram26Lendo1Querem30Relendo0Abandonos0Resenhas2
    Favoritos1Desejados30Avaliaram21

    Olhos azuis, cabelos pretos, romance de 1986 de Marguerite Duras, se desenrola em um quarto de hotel em um balneário francês, onde ao fundo é possível avistar o mar e escutar o barulho de pessoas desconhecidas em busca de sexo. Um jovem estrangeiro de olhos azuis enigmáticos e cabelos pretos passa pelo saguão do hotel e se mistura na multidão. Dentro do cômodo, há dois protagonistas que se conectam por um desejo peculiar e sem esperanças. O que os une é a falta do rapaz estrangeiro, que consome seus pensamentos. O Homem e a Mulher: personagens formais, belos, nus e iluminados pela luz noturna que penetra a janela do quarto. Ela, uma escritora do interior; ele, um jovem homossexual. Jogados lado a lado na cama, em uma imobilidade que impede que se consuma qualquer relação, eles conversam e lamentam a ausência do estrangeiro, que desconhece suas existências e exerce um fascínio desmesurado sobre eles. *** A puta da costa normanda é um pequeno texto biográfico de Marguerite Duras, escrito concomitantemente a Olhos azuis, cabelos pretos. A escritora está em um hotel em Trouville, de frente para o mar, e escreve as páginas de seu romance na companhia de seu amante Yann Andréa, 38 anos mais jovem que ela e homossexual. Este último tem a tarefa de digitar o texto em uma máquina de escrever. A relação dos dois é conturbada. Ouvimos gritos. Yann critica sua amante por seu desejo de escrever, sua misantropia, sua vontade inabalável que não deixa espaço para mais nada. Ele a culpa pela falta de sociabilidade, pela falta de vontade de sair, de aproveitar a vida. Ele está vivendo a “realidade”, em Trouville, entre o Casino e o grande hotel. Ela está em um mundo virtual e imaginário. Ao contrário de Olhos azuis… este manuscrito é secreto, não dado a Yann para sua digitação. Segundo Duras, quando o livro terminar, não há mais razão para que ele exista como objeto pessoal, podendo ser publicado para testemunhar o que aconteceu durante o tempo de escrita de seu romance.

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    André Esteves | @memorialdeumleitor picture
    André Esteves | @memorialdeumleitor14/08/2023Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    O vazio interior num quarto esvaziado

    No teatro, é comum abrir mão de cenários elaborados e recorrer a fundos monocromáticos e ao uso de poucos objetos com o intuito de evitar a distração do público e mantê-lo concentrado exclusivamente na ação do elenco. Tal objetivo é compartilhado por Marguerite Duras em seu romance “Olhos azuis cabelos pretos”, no qual todo o enredo se desenrola predominantemente num único espaço: um quarto despojado de mobília e ocupado apenas por lençóis brancos no chão e um lustre, que dá à narrativa o elemento cênico, já que a luz enquadra os personagens quando estes deixam a penumbra. O cômodo é dividido por uma garota heterossexual e um rapaz homossexual, que parecem espelhar a própria Duras e o escritor ao qual dedica este livro, Yann Andréa, com quem manteve um relacionamento até o fim da vida. Os personagens, não nomeados, cumprem um contrato: ela foi paga para estar ali e lhe fazer companhia após uma desilusão sofrida por ele, que se apaixonou pela visão fugaz de um estrangeiro de cabelos pretos e olhos azuis deixando um hotel. O que os une é que ela se relacionou com o forasteiro e, portanto, possui aquilo que ele nunca vai obter: a experiência íntima com aquele estranho. Nesse quarto esvaziado de coisas, eles contemplam a ausência que pode engolfar a existência humana, mesmo no convívio a dois. Embora cresça uma relação de afeto entre ambos (às vezes, violenta), prevalece a dificuldade de comunicação e conexão, pois nenhum é capaz de suprir os desejos do outro. Nesse contexto, o leitor se torna espectador de uma cena contínua em que os personagens vertem dores, angústias e muito, muito choro. Esta edição da Relicário ainda inclui o ensaio biográfico “A puta da costa normanda”, em que a autora revela os bastidores da composição do romance. Apesar de se tratar de um livro curto, confesso que fiquei desconcertado com a força da escrita de Duras, que transpõe as barreiras da palavra para externar sentimentos aparentemente inexprimíveis. A francesa rompe o invólucro do que há de mais profundo em nós para revelar nossas inquietações em torno dos encontros impossíveis, dos amores transitórios ou não correspondidos, da privação dos desejos e da aniquilação da memória. | Resenha originalmente publicada na minha conta no Instagram: @memorialdeumleitor |

    5 curtidas

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    Avaliações

    4.3 / 21
    • 5 estrelas29%
    • 4 estrelas57%
    • 3 estrelas14%
    • 2 estrelas0%
    • 1 estrelas0%
    Marguerite Duras profile picture

    Marguerite Duras

    Marguerite Duras (pseudônimo de Marguerite Donnadieu) nasceu em 1914, em Gia Dihn (Vietnã), onde passou sua infância e adolescência. Após a morte do pai , em 1918, a mãe de Duras conseguiu uma pequena concessão de terra no Camboja (então colônia francesa), mas o terreno se mostraria incultivável e sua família viria a perder quase tudo com a chegada das enchentes. Esses dias na Ásia marcaram profundamente a vida de Duras. É a respeito dessa época uma de suas obras mais importantes, Barragem Contra o Pacífico (1950). O seu pai morreu quando tinha quatro anos de idade, e a sua mãe, uma professora, lutou arduamente para criar três filhos sozinha. Durante a adolescência, Marguerite Duras teve um caso com um homem chinês rico e retorna mais tarde a este período nos seus livros (nomeadamente O Amante e O Amante da China do Norte). Aos 17 anos viajou para França, onde estudou Direito e Ciência Política no Sorbonne, formando-se em 1935. Durante a II Guerra Mundial, marguerite Duras tomou parte da da Resistência Francesa, filiando-se também no partido comunista. Duras publica os seu primeiros livros em 1943 e 1944, Os Imprudentes e A Vida Tranquila, respectivamente. A partir de 1959 começa também a escrever argumentos para o cinema, dos quais Hiroshima meu amor é sem dúvida o mais conhecido e marcante. Em 1950, com Uma barrangem conhtra o Pacífico, Duras esteve muito próxima de ganhar o Prémio Goncourt. É no entanto apenas 30 anos depois que a injustiça lhe é reparada, ganhando o prémio por unanimidade com o romance O Amante. É uma autora muito fértil, com uma obra literária vastíssima, desde os romances aos argumentos cinematográficos. Afirma-se sempre com um estilo de beleza inconfundível, num tom duro e denso, por vezes até um pouco inacessível, mas sempre numa expressão profundamente genuína e humana das paixões, grandezas e misérias da vida. Marguerite Duras é por excelência uma escritora da condição humana, mas contudo não procura utilizar a escrita como forma de redenção e/ou salvação; antes, a escrita é uma exigência urgente, um valor supremo em que reside, uma vontade bruta de falar de si. As suas obras estão repletas de descrições belíssimas e soberbamente envolvidas na ambiência exótica da paisagem oriental, não sem deixarem reconhecer uma intensidade angustiada e desesperada, oriunda de uma constante luta da autora com as questões do amor e da morte. Durante a década de 1980, Marguerite Duras apaixona-se por Yann Andréa Steinner, um homem 38 anos mais novo. Duras viverá com Yann até à sua morte em 1996, mas não sem antes atravessar um duro período em que permaneceu junto do seu marida Robert Antelme, depois de este ter sobrevivido milagrosamente a uma captura pela Gestapo. Este período serviu de base para uma colecção de histórias curtas, intitulada A Dor (de 1985), um grito literário sobre a pressão sob que viveu.

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    Marguerite Duras