Uma viagem distópica e perturbadora que se transforma em um pesadelo existencial. Em um futuro distante, a milhões de quilômetros da Terra, humanos e humanoides viajam a bordo da nave seis mil. Sua tarefa é explorar Nova Descoberta, um planeta aparentemente árido e sem atrativos. As seguidas incursões pelos vales e penhascos do lugar, no entanto, acabam revelando objetos estranhos, logo transportados para o interior da nave e acondicionados em salas especiais. Com a chegada desses artefatos, envoltos de incompreensão e mistério, a convivência na nave seis mil entra rapidamente em uma espiral de degradação. Estruturado como uma série de depoimentos compilados por uma comissão investigativa, Os funcionários narra os eventos ocorridos na nave após a descoberta dos objetos.
Os funcionários -
Olga Ravn
Corporativismo no vale da estranheza
Diferente de tudo que já li até hoje, Os Funcionários é uma ficção especulativa moldada em forma de depoimentos colhidos e dispostos em ordem aleatória. São textos breves em sua maioria que dão conta de como os tripulantes de uma nave espacial tem passado após eventos misteriosos seguidos de um contato com objetos encontrados em um planeta remoto. A tripulação é composta por humanos e humanoides, criaturas biologicamente humanas porém criadas sinteticamente e que suas consciências e funções cerebrais podem ser "upadas" e transferidas para qualquer que seja um sistema de memória, biológica ou não. Essa forma de apresentação cria uma narrativa não-linear e impessoal e torna tudo misterioso ainda mais. Não somos apresentados a personagens específicos que são desenvolvidos. Aqui o foco é o mistério dos objetos que causam alucinações, sonhos, empatia ou aversão nos funcionários da empresa. Empresa essa que está interrogando seus funcionários, daí os depoimentos. Com o decorrer da história percebe-se uma polarização entre os funcionários humanos genuínos e os fabricados artificialmente. A sensação de "o que nos torna humanos?" fica cada vez mais impregnada na nossa mente. E a relação de medo e desconforto frente aos humanoides nos leva diretamente ao conceito do Vale da estranheza. Um conceito que particularmente me causa arrepios, que dá conta da sensação ruim e desagradável quando estamos diante de algo quase humano na aparência mas que por um ou outro detalhe entrega sua artificialidade. É como quando vemos um robô androide executando funções de forma mecanizada ou tentando fazer expressões faciais ou animações como O Expresso Polar. Isso gera uma sensação de estranheza muito grande na maioria das pessoas. E como uma crítica ao sistema neoliberal vigente, temos o poder de grandes corporações que passam por cima de tudo e todos, humanos ou não, com um único propósito: a manutenção da produção a todo custo. O livro não chega a ser um tratado socioeconômico, mas fica bem claro que a autora quis dizer, principalmente quando no final temos a grande decisão da empresa responsável pela nave 6000. A obra como entretenimento também tem seu trunfo nas referências e na construção de toda a trama misteriosa. Vi um pouco de 2001 com esses objetos inanimados que influenciam as pessoas assim como o misterioso monolito; Solaris com seus personagens vivendo situações absurdas e profundamente arraigadas ao psicológico; viagens de space operas e a questão da realidade e o homem frente aos sintéticos como os replicantes de PKD. Em suma, o livro discute o poder das corporações aliando com o conceito do Vale da estranheza que até hoje desde sua concepção nos anos 70 é um grande mistério. Assim como o mistério dos objetos encontrados no longínquo espaço, capaz de influenciar e ditar quem é humano, coisificar quem é humano ou humanizar quem é sintético. O charme da história está nesse mistério construído aos poucos e que assim permanece ao final, estranhos a nós. Em algum momento em nossa evolução ficamos frente a frente a um ser que apesar de parecer muito, não era humano e isso se agarrou no nosso subconsciente, atravessando eras de evolução. Será que um dia encontremos novamente outro ser ou criatura que evoque nosso vale da estranheza tão fortemente?
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