? O que eu gostei em Degelo ?
Quando foi escolher por qual ótica falar da reinserção na sociedade de duas pessoas envolvidas em um assassinato brutal, Ana e sua amiga Eleonora, Lucrecia Zappi tinha basicamente dois caminhos a seguir. Um era torná-las as grandes vítimas da situação (o que seria descabido) e a outra era pintá-las com as piores cores, vilanizá-las (o que seria um baita dum clichê). Lucrecia pega então o seu carro e vai pela pequena trilha de areia que fica entre os dois caminhos. Ela decide: elas não são vítimas nem vilãs. Cometeram atos cruéis, são autocentradas, frias e vivem em uma bolha de privilégios. Mas aí Lucrecia decide que vamos vivenciar ser alguém assim em primeira pessoa do singular. Ela nos obriga a existir como Ana, a nos imaginar em uma realidade em que temos medo que qualquer pessoa na rua vá nos assediar por algo que fizemos no passado, por uma dívida impossível de saldar.
Não vou mentir, não foi uma experiência exatamente fluida e espontânea. Tinha horas que eu me pegava pensando "Será que eu preciso mesmo ler sobre o constrangimento da Ana em passear no Central Park (que por sinal fica em frente ao apartamento dela)"? Por essas e outras, podia até botar isso tudo na seção abaixo, ?o que eu não gostei tanto em Degelo?. Mas foi justamente o que, no fim das contas, achei mais provocador e interessante no livro. Isto é, essa sensação de ?nem sei o que eu vim fazer nessa festa estranha?, esse deslocamento.
Numa relação figura-fundo, ao nos colocar como uma pessoa privilegiada que se muda pra Nova Iorque pra escapar de ameaças e assédio, Lucrecia Zappi enfatiza o negativo dessa imagem: qualquer pessoa que tenha cometido um crime e não tenha influência e dinheiro para escapar das consequências disso. Por toda a vida, mesmo após cumprida a pena. Mesmo que tenha cometido um crime menos grave. Ou até mesmo pensar em alguém que seja julgado injustamente. É algo que nos faz questionar: na prática, temos como pagar por um crime e nos considerarmos quites com a sociedade?
Além disso, a prosa tem uns momentos de graciosidade, a exemplo de
?Uma frase poderia começar expressando uma dúvida, por exemplo, tornando-se mais assertiva e talvez terminando de volta numa interrogação clara. Sons generalizados iam se afinando, ficando mais refinados. Lembrava o rabo de um gato, mexendo lentamente, distante, mas alerta o suficiente ao som de um passarinho para seu apetite palpitar.?
Ora, até agora fiz parecer que achei Degelo um livro excelente. É, sim, um livro bom. Mas, à parte as discussões e pensamentos que ele suscita, não diria que me foi um livro exatamente memorável.
? O que eu não gostei tanto em Degelo ?
Faltam aparos, um tolhimento em certos pontos. A segunda parte do livro, "Dentes", por exemplo, ficaria melhor sendo em boa parte suprimida. Falta à autora tocar um pouco mais a trama como o seu personagem Max toca piano:
?Max tocava afiado, mesmo quando esticava as linhas melódicas, o que não deixava de soar verdadeiro apesar do rubato tão modesto. Percebi que tudo o que fazia era tirar os respingos de efeito (?).?
O que é uma pena, porque todos os elementos para uma história empolgante estavam lá. A prosa, as reflexões, o enredo, os personagens com múltiplas camadas? Mas a autora pesa a mão em muitos momentos, e o que eram simbologias marcadas de significados (o espelho, o fogo, as contas) se tornam excessivas e até óbvias de tanto que são reiteradas. Mesmo a lentidão, que eu costumo apreciar em muitos romances, é demais para o meu gosto. O ?degelo?, muitas vezes, é ?derretimento?, ?cozimento? de expectativas. Diluição.