Desconfortável e claustrofóbico talvez sejam boas definições para esse romance da autora islandesa Fríða Ísberg. Com elementos distópicos e discussões extremamente atuais a autora não oferece ao leitor o conforto de um personagem em que possa se identificar sem incômodo. Esse livro incomodará profundamente àqueles leitores que tem visões maniqueístas do mundo, que dividem as pessoas em boas e más como se isso fosse tão simples.
Não, a autora nos faz penetrar no íntimo de seus personagens e ao nos compadecemos no minuto seguinte descobrimos que o personagem nem de longe é só uma vítima. Também a autora faz pedacinhos da ideia de alguém movido por desejos altruistas de mudar o mundo, ela joga uma lente cruel e impiedosa sobre todos os personagens (os principais) tingindo tudo de tons de cinza, claros ou escuros.
Esse é um dos motivos que faz com que esse livro encerre um certo perigo A depender do leitor ele será entendido como uma sátira ácida aos idealismos de esquerda para outros como uma paródia dos discursos mais delirantes da extrema direita. Tenho por mim que a autora atira em tudo e em todos.
O mais desconfortável porém é perceber o quanto o que a autora descreve nos é próximo, se é que não é já aplicado em alguns contextos. A quantidade de testes e padrões de conduta utilizados nas corporações não nos permite nos enganar que em algum nível já existe uma seleção e um sistema de castas sendo aplicado.
É um livrinho, perturbador, incômodo e atual que vale a pena ser lido, levanta questões bem pertinentes. A tradução porém faz algumas escolhas estranhas, um certo recurso utilizado só vai ser entendido lá pelo meio do livro, me parece que faltou uma nota ou um esclarecimento a respeito.
Em paralelo as histórias narradas, temos uma troca de cartas entre duas amigas, que vai desenvolver em paralelo as questões tratadas na trama, mas que de certa forma quebra um pouco o ritmo. Cabe ainda dizer que a autora não oferece soluções fáceis, o final aberto vai frustar alguns, mas faz todo o sentido.