Vida e época de Michael K -

    J. M. Coetzee

    Companhia das Letras
    2023
    216 páginas
    7h 12m
    ISBN-13: 9786559213641
    Português Brasileiro

    O sul-africano Michael K, negro e pobre, perde a mãe e passa a viver como um andarilho, num país convulsionado pela guerra civil. Aos poucos, o protagonista se destitui dos elementos que o ligam ao mundo. Esse processo de animalização pode ser o único refúgio numa época marcada pela barbárie. O livro, de 1983, valeu a Coetzee seu primeiro Booker Prize. Negro, pobre, feio e sem ninguém no mundo - sua mãe acaba de morrer -, Michael K vaga pela África do Sul convulsionada pela guerra civil. Obrigado a esconder-se da polícia, ele vive à deriva em estradas, fazendas abandonadas, cavernas ou num campo de trabalhos forçados. Michael K alimenta-se de raízes, insetos e, excepcionalmente, de um cabrito que consegue afogar num açude. Dorme em abrigos improvisados ou ao relento e supera a tontura, a ânsia e a letargia. Preso pelo exército, sucumbe às atividades físicas que seu corpo esquálido é incapaz de suportar. Mesmo assim, foge. Pouco a pouco, vai se destituindo dos elementos que o ligam ao mundo exterior, até ver-se reduzido a uma existência em que a realidade parece escorrer-lhe pelos poros. A certa altura, o narrador do livro conclui: "Um homem tem de viver de modo a não deixar sinal da sua vida. Foi a isso que se chegou". Há, contudo, mais que a nota pessimista no processo de animalização por que passa o protagonista. Sua trajetória permite supor que o contato direto com o mundo em volta não apenas contribui para o desenvolvimento de uma vida interior, como parece o único refúgio possível num tempo dominado pela irracionalidade e pela barbárie.

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    Carlitão23/04/2024Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Bartleby Vs. Policarpo

    Um livro simples de ler e difícil de engolir. O personagem Michael K sofre bocados na história, o enredo parece uma mescla de neorrealismo italiano com o novo cinema iraniano, ou seja, drama atrás de drama, problema atrás de problema rs. É interessante notar que Coetzee parece ter sido levemente influenciado por Kafka, afinal o nome do personagem principal é K (o mesmo nome de O Processo) além do clássico de Melville (Bartlebly o Escrivão). A sensação que dá é que K é tão teimoso quanto Bartleby e não consegue se moldar de forma alguma com a sociedade. No título dessa resenha também indiquei o nome de Policarpo, embora eu acredite que o escritor africano nunca tenha lido nada de Lima Barreto. É engraçado notar algumas peculiaridades de K com Policarpo Quaresma, uma vez que ambos são sujeitos ordinários, de bom coração e apaixonados pela agricultura. Aqui também tem a leve alfinetada de Coetzee aos carnívoros de plantão, porém a sua pregação ao vegetarianismo é mais leve que no livro Desonra e faz mais sentido ao contexto da narrativa. Recomendo o romance a todos que gostam de personagens cativantes e idealistas. Nota: 8,06 (0 a 10,5)

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