O livro traz a fórmula literária, que nunca falha, da Jornada do Herói, onde o nosso protagonista tem uma infância feliz, caminha e navega à ruína, para depois encontrar o sossego de um espírito atribulado em busca do cumprimento da vontade divina em sua vida.
Passado no começo dos anos 1500, logo após a reconquista plena da Espanha pelos reis católicos, traz um pouco de história, cultura, filosofia, confronto de religiões e questionamentos de João de Deus diante à Inquisição; interessante que o autor expõe a história sem recorrer ao atual revisionismo de uma ala católica, que tenta colocar "panos quentes" no que foi a Inquisição, mas acredito que fruto de uma reação à outra ala, ecumênica, que está relativizando vários conceitos cristãos. É só ver a desestruturação europeia diante o avanço da islamização que, só quem não quer ver, não aceita a democracia.
Eu que conheço um pouco o sul de Portugal e a linda Granada, caminhei nos jardins de Alhambra junto com João de Deus e pude sentir novamente o fragor das rosas que permeiam essa pérola árabe. Também senti a mesma tristeza que João de Deus sentiu a conhecer o Picadeiro de Sevilla, eu nem quis entrar sabendo do espetáculo horrendo que acontecia com os infelizes touros e me afastei como ele há 500 anos.
Bem, eu que sempre tive simpatia à cultura árabe antiga e torcia pelas derrotas dos Cruzados diante ao lábaro verde, mas sei que o processo de islamização autocrática e populista das últimas décadas está destruindo o pouco da cultura avançada e liberal que foi o Oriente Médio do passado, assim como os califados viam os cruzados cristãos como bárbaros ignorantes sem ética e sem moral cristã, inclusive. Pois como tem uma frase neste livro: "Se vocês cristãos fossem como Isa (Jesus, em árabe), o mundo todo seria cristão." E João de Deus também professava essa ideia e procurou o caminho do Amor, do Perdão e da Misericórdia para seguir os passos de Cristo.