Manifesto antimaternalista - Psicanálise e políticas da reprodução

    Vera Iaconelli

    Zahar
    2023
    256 páginas
    8h 32m
    ISBN-10: 6559791300
    Português Brasileiro

    Uma denúncia contundente da armadilha ideológica que responsabiliza as mulheres pelo cuidado com as próximas gerações. Notória especialista no tema da parentalidade, a psicanalista Vera Iaconelli apresenta sua contribuição mais radical para a crítica da ideologia que considera as mulheres insubstituíveis no cuidado com as crianças. Com clareza e concisão, a autora sublinha a dimensão política do trabalho reprodutivo, já que cuidar das novas gerações é uma tarefa imprescindível para a manutenção da sociedade. Neste Manifesto antimaternalista, ela lança nova luz sobre a teoria psicanalítica, revisitando autores como Freud, Lacan e Winnicott, e incorporando contribuições vindas dos estudos de gênero e das relações raciais, do pensamento decolonial e das reflexões sobre os efeitos do neoliberalismo na construção das subjetividades. O livro aborda a diferenciação entre gestar, assumir o parentesco e cuidar de uma vida, e, sem homogeneizar a categoria "mulher", reconhece que a experiência da parentalidade é determinada por fatores como raça, classe, gênero e faixa etária. Para Iaconelli, os embates sobre o cuidado e a reprodução da vida são embates políticos -- e a psicanálise é uma arma da qual não podemos abrir mão.

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    Ana Sá03/01/2025Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Contra o maternalismo, e não contra a maternidade

    Para entender do que trata este livro é preciso se atentar a um detalhe de seu título: a autora nos apresenta um manifesto "antiMATERNALISTA" e não "antimaternidade". Ou seja, ao se referir ao maternalismo (enquanto discurso/ideologia), critica-se não a escolha/experiência da maternidade em si, mas "a insistência num modelo anacrônico de cuidado baseado na inteira responsabilização das mulheres". Enquanto isso, no lado dos homens, "a paternidade é reconhecida mesmo quando ele [o homem] se ausenta de suas responsabilidades". Apesar de breve, a obra da psicanalista Vera Iaconelli aborda questões e conceitos que dão um ótimo panorama do tema. Além da seção inicial focada na definição de "Maternalismo", na qual inclusive se revisa criticamente o papel (contraditório) de Freud/da psicanálise e do próprio movimento feminista na construção das correspondências "mulher" = "mãe" = "cuidado", o livro se divide na dupla dicotômica "Reprodução de corpos" e "Reprodução de sujeitos", capítulos estes focados em distinguir e debater o que é "gestar", "assumir parentesco" e "cuidar". O mais interessante pra mim é que ao afastar o gestar (que se restringe ao fenômeno biológico) do cuidar (que pode ser exercido por qualquer pessoa) a autora não deixa de esclarecer a singularidade e a complexidade da vivência de uma gestação (o livro não é antimaternidade, lembram?). Outro ponto que a meu ver merece destaque é o fato de Iaconelli considerar recortes de classe, raça e etnia ao longo de todo o texto. Ela recorda, por exemplo, o histórico papel de mulheres negras no cuidado de crianças brancas no Brasil. Não me lembro se foi num ensaio de Sueli Carneiro ou de Beatriz Nascimento onde li pela primeira vez um questionamento do tipo “a tua emancipação feminina será conquistada às custas de uma mulher negra mal remunerada em tua casa?”. Considerando a dimensão estrutural (e não individual) do problema, o texto de Iaconelli também despertou portanto algumas memórias do que já li sobre feminismo negro. Caminhando pro fim da resenha, fiquei impressionada em perceber como há muitos outros aspectos que são abordados no livro, mas que tornariam essa resenha ainda maior (senão tediosa) caso eu decidisse destacar tudo que anotei durante a leitura. O preço desse panorama é a rapidez dissertativo-explicativa que senti em algumas passagens, mas nada que diminua o fervilhar do cérebro e de valores que essa leitura é capaz de causar! Obs.: menção honrosa não-detalhada pro capítulo “De que é feito um bebê?”.

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