Depois de vinte anos de exílio na América do Norte, um escritor regressa a seu Haiti natal e enfrenta o desafio de narrar essa experiência. À maneira de um pintor primitivo, com traço firme, cores vivas e perspectiva multifacetada, além de extrema inteligência e sensibilidade, ele conta sua perambulação pelas ruas de Porto Príncipe, seu cotidiano singular, pulsante de vida e de morte. A cada passo surgem pequenos quadros com personagens e situações inusitadas; grandes reencontros que disparam lembranças, nem sempre doces; diálogos inesperados, que revelam as inquietantes novidades do aqui e agora. Em meio ao vaivém de reconhecimento e estranhamento, onde se alternam o país real e o país sonhado, o autor é convidado a realizar uma viagem ao "país sem chapéu": o reino dos mortos e dos deuses do vodu. Primeiro livro de Dany Laferrière a sair em português, País sem chapéu é também um convite a penetrar num território que tem muitos paralelos com o nosso. Com um estilo límpido e permeado de ironia, Laferrière integra-se ao time de escritores de cultura híbrida, desarraigada, que erguem sua voz acima das fronteiras e falam com toda a humanidade.
País sem chapéu -
Dany Laferrière
Edições (2)
Ver maisCom dezenove anos, virei jornalista em plena ditadura dos Duvalier. Meu pai, também jornalista, tinha sido expulso do país por François Duvalier. O filho deste, Jean-Claude, me empurrou ao exílio. Pai e filho, presidentes. Pai e filho, exilados. O mesmo destino. - pág. 121 Se você acha que o Homem do Saco não existe, é porque não conheceu os Tontons Macoute da ditadura Duvalier. País sem chapéu é o sétimo livro entre os dez, que segundo o autor, constituem sua autobiografia americana. Também é o único de seus livros, até o momento, publicado no Brasil. Dany Laferrière passou vinte anos entre Canadá e Estados Unidos e no seu retorno ao Haiti, tem, ao mesmo tempo, o olhar do filho da terra e do estrangeiro. Como escreveu Heloisa Moreira no posfácio: Seu olhar é o de alguém que conhece muito bem o lugar, mas é também um olhar distanciado de quem já não pertence mais. O autor não está mais simbiótico com o seu meio, deu um passo atrás. O fato de ter vivido em culturas diferentes lhe garante o recuo. Percebe-se a intenção do autor de resgatar sua história, e com ela a de seu país. Escrita de modo fragmentado, a narrativa se alterna entre País Real e País Sonhado. No País Real, o dia: a dura realidade dos haitianos, neste que é o pais mais populoso da Comunidade do Caribe (CARICOM) e o mais pobre da América; no País Sonhado, a noite: o misticismo, os fantasmas, a religião, o culto aos mortos, o vodu e o exército de zumbis (ler a pág. 229 do prefácio ajuda a entender melhor essa parte). Eu gostei muito do livro até pouco mais da metade. Depois achei que o ritmo caiu um pouco, talvez o direcionamento que não foi me agradando tanto sem contar que fui sentindo uma antipatia pelo narrador - que no caso é o autor, né, gente? rs -, porém o final foi tão belo como o início. Talvez não tenha sido o melhor momento para esta leitura, por isso acredito que possa não ter aproveitado tudo o que oferece. É um bom livro, que gostei em alguns momentos e em outros nem tanto. - Os mortos são mais felizes que nós. - Mas a senhora não pode ter certeza disso - diz minha mãe. - Posso, sim! O que me faz pensar isso é que ninguém voltou. Um silêncio de morte. - pág. 122 Nota: País sem chapéu = reino dos mortos e dos deuses do vodu, para os haitianos.
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