A contextualização histórica, geográfica, religiosa e cultural do ambiente onde nasceu Deus ajuda a compreender elementos importantes da figura divina que por muito tempo esteve restrita a um determinado grupo étnico e em um dado momento passou a ser a figura divina mais representativa ao redor do mundo.
Mark Smith conduz essa pesquisa com sobriedade, apresentando ao leitor o pano de fundo das influências cananeias que estavam presentes nas formas mais primitivas das perspectivas religiosas e cultuais dos israelitas e judaitas. A partir disso, é possível compreender melhor como Yahweh -- essa divindade antes local, mas hoje global -- se relacionava com outras divindades do panteão cananeu. Para Smith, ao longo dos milênios houve um exercício de convergência e divergência, com Yahweh tendo assimilado atributos e características associadas a outras divindades daquela região geográfica, como El, Baal, Asherah e outros, mas também tendo sido antagonizado, por vezes, a essas mesmas divindades, como é o caso de Baal.
A tese do autor é de que os traços mais antigos da religião do povo de Israel e de Judá demonstram uma caminhada que vai do politeísmo ao monoteísmo, passando pela monolatria que se estabelece principalmente no período de antagonização com Baal, que representava um risco até mesmo de ordem político-nacional no período da monarquia. Outros elementos presentes em povos da região do Antigo Oriente Próximo se mostram também presentes na bíblia hebraica, em textos que mostram essa transição da aceitação para a condenação, como é o caso dos cultos em lugares altos, sacrifícios de crianças e práticas culturais que envolviam os mortos.
Assim, o passado cananeu de Israel se mostra presente textos mais antigos, de modo que a figura de Yahweh no período javista inicial já difere da figura de Yahweh no período da monarquia e, posteriormente, no período do exílio.
O livro apresenta vasta referência bibliográfica, com muitas menções o tempo inteiro a passagens bíblicas e a textos ugaríticos e escritos locais da região que embasam uma perspectiva que, a meu ver, parece bem fundamentada. Além disso, o trabalho de revisão e diagramação é bem satisfatório. A leitura flui bem, apesar das inúmeras notas de rodapé por vezes excessivamente extensas ocupando as páginas.