A História do Brasil possui muitos fatos ainda obscuros, pouco estudados ou desconhecidos da maioria dos brasileiros. Episódios que ajudam a entender a formação e os problemas sociais do país - carregados de sangue, carnificina, injustiças e o acobertamento por parte daqueles que estão no poder.
Você sabia que o Brasil teve o 2° maior partido nazista do mundo, durante a Segunda Guerra Mundial? Sabia que Vargas era amigo de Hitler e deportou judeus para os campos de concentração em Auschwitz? Pior: sabia que, nos anos 30, o governo do Ceará criou campos de concentração para isolar e matar os retirantes durante a Grande Seca? A verdade é que o Brasil nunca soube lidar com seus crimes e traumas do passado, preferindo varrer certos acontecimentos para baixo do tapete e fingir que certas coisas nunca aconteceram - erros que, consequentamente, acabam por se repetir ao longo da história.
A Santa Inquisição Católica teve início no século XII - na França, na Itália, em Portugal e na Espanha - e aportou no Brasil ainda no período colonial. Sim, o Brasil também teve caça às bruxas. Ao todo, foram 300 anos de perseguição religiosa, política e assassinato de homens e mulheres, acusados de bruxaria e judaísmo.
Em A Noite do Cordeiro, seu novo romance, Daniel Gruber revela esse passado sombrio, por meio de uma narrativa de mistério e horror, que é tão assustador por justamente refletir os acontecimentos recentes em nosso país.
Na trama, acompanhamos um grande mistério, cercado de horrores sobrenaturais e o fanatismo religioso, através de dois protagonistas: Vicente de Alcântara é um jesuíta humanista e recluso que só terá paz quando desvendar o mistério de uma menina que volta enfeitiçada da floresta. E Awa Ndongo é uma curandeira angolana capturada como escrava que não descansará até recuperar sua liberdade.
A ação se passa em um povoado na Bahia de 1620, assombrado por rumores de pactos e seitas malignas, mas sobretudo pela chegada de um comissário da Inquisição portuguesa obcecado por bruxas e diabos. A escrita de Daniel é tão precisa que ele consegue nos transportar para esse cenário a ponto de nos sentirmos parte da ambientação, quase sentindo o calor do sol e os odores de seus personagens. As cenas de tensão são construídas de forma cirúrgica, capazes de provocar um arrepio no pescoço do leitor, como se os demônios surgissem das páginas e se escondessem muito próximo a você. A floresta e todas as sombras e sons que nela habitam servem para criar a atmosfera de medo ao desconhecido. O que habita nela é tão ou mais macabro do que reside nos corações dos sacerdotes e senhores de escravos.
Vale destacar também o belíssimo projeto gráfico da editora O Grifo, com ilustrações que tornam a leitura ainda mais imersiva.
Mergulhando em referências visuais como "A Bruxa", "O Caçador de Bruxas" e "A Missão", o livro também ecoa a tradição literária de clássicos como "O Nome da Rosa" de Umberto Eco e "Do amor e outros demônios" de Gabriel Garcia Marquez. Além dos contos detetivescos de Sir Athur Conan Doyle e Edgar Allan Poe. A Noite do Cordeiro é tanto um romance histórtico, um terror gótico e um thriller de mistério.
Se em "A Floresta" já ficou claro que Daniel é um dos grandes nomes do horror nacional, A Noite do Cordeiro o coroa como o mestre do Folk Horror nacional. Um dos melhores livros já escritos, independente de gênero e nacionalidade.