Vai um comentário simples e sucinto, apenas para não deixar passar em branco esse meu encontro com o Orwell ensaísta.
Acho que gostei mais do que do Orwell romancista, Não pelas ideias, que aqui como no romance são ótimas, mas porque Orwell não se mostra esperançoso como autor de ficção, e ficção deprê eu até leio, mas dificilmente vira meu favorito para ficar relendo.
Nos ensaios, essa visão de Orwell desce melhor, até porque aqui ele lida com a realidade, então, pode fazer previsões ora funestas, mas não pode determinar que os resultados serão de fato os que prevê - como numa obra de ficção.
Nesta edição, são 9 ensaios, e o que dá título, "Dentro da Baleia" é o melhor. Outros que merecem destaque mesmo sem achá-los tão bons como o primeiro, são "A prevenção contra a Literatura" - onde se comenta um encontro do PEN Club centrado na liberdade de imprensa, e onde segundo Orwell, pouco se falou - aliás, o tema foi escamoteado - sobre a liberdade política do escritor, a bandeira do direito à obscenidade sendo levantada com muito mais empenho (uma distração conveniente?); "Mina abaixo", sobre a realidade do trabalho dos mineiros ingleses, pelo menos nos anos de 1930; ""Inglaterra, sua Inglaterra", um interessante retrato da mentalidade do inglês comum segundo Orwell; "Política vs. Literatura: uma análise de As Viagens de Gulliver"; etc.
As observações e análises de Orwell são inteligentes, atentas, dando uma impressão de leitor curioso que não se contenta com lugares comuns seja qual for o tema. Nem sempre concordei, mas não senti - como já senti tristemente com autores que até gosto - que Orwell havia deixado sua inteligência de folga ao abordar política, por exemplo. Ele soava lúcido. Isso é bom. Para mim, é vergonhoso ler um contista ou poeta que, filiado a A ou B, põe sua mente para passear quando se trata de olhar para uma situação constrangedora que seu "partido" não pode explicar sem parecer covarde ou hipócrita. Que bom ler alguém que não faz isso.
Valendo como 4.5 porque Orwell não entende muito de cristianismo e faz generalizações que deixam isso vergonhosamente (para ele) evidentes. Uma afirmação sua porém merece destaque:
"O romance é praticamente uma forma de arte protestante; é produto da mente livre, da autonomia do indivíduo." Uia!