Este romance de Maria José Silveira, publicado originalmente em 2002 e agora reeditado com um capítulo extra, é um projeto, no mínimo, ambicioso: a narrativa conta a história do Brasil (da invasão portuguesa ao golpe de 2016) a partir de uma linhagem de mulheres que viveram guerras, migrações, insurreições, ditaduras e inúmeros outros golpes (físicos, simbólicos, políticos). Mas diferente da obsessão documental que caracteriza os romances ditos históricos, Silveira não permite que a pesquisa em documentos e arquivos prevaleça sobre a narrativa: o que pesa do primeiro ao último capítulo é a imaginação, formas presentes de enxergar uma família que começa com a tupiniquim Inaiá e o jovem grumete Fernão em 1500.
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O tom encontrado pela autora beira a oralidade, o que confere leveza e ritmo até mesmo nas passagens mais sombrias do romance (que são muitas, considerando nosso histórico de escravidão, machismo e repressão). Ricamente caracterizadas, as mulheres de Silveira são forças contra o abuso de poder e a violência de gênero. Chama a atenção, ainda, a opção (polêmica!) de começar a narrativa por um relacionamento genuinamente amoroso entre a índia e o rapaz português, marcando, a meu ver, uma “origem” possível e pacífica que foi, logo em seguida, manchada pelo estupro e pela desumanização da exploração colonial.
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Convém mencionar, para concluir, o capítulo adicionado a esta edição. Silveira dá continuidade à história de Maria Flor, filha de desaparecidos políticos da ditadura, por meio de sua filha Amanda, uma millennial que vivenciará a derrocada da democracia com o impeachment da presidenta Dilma. Há quem considere isso, essa guinada tão clara à esquerda, um defeito do livro. Mas não seria toda a obra, escrita sob a perspectiva das mulheres e contra a história hegemônica dos homens brancos, precisamente isso? Recomendo, portanto, a quem não gostar do excesso de "esquerdismo" do final, que compre a edição antiga e feche os olhos para o título, ignorando o mundo de mulheres guerreiras do povo brasileiro que se anuncia ali.