Fragosas brenhas do mataréu -

    Ricardo Azevedo

    Scipione
    2018
    191 páginas
    6h 22m
    ISBN-13: 9788547401443
    Português Brasileiro

    Por séculos, viajantes relataram a existência de uma terra mítica nos confins do oceano. Que agruras aguardariam o aventureiro que se atrevesse a buscá-la: monstros fantásticos, povos canibais, o fim de suas crenças e certezas? O ano é 1558. Em Portugal, uma mulher é injustamente acusada de bruxaria e morre nos porões do tribunal do Santo Ofício. A seu filho - um jovem que nem sabe ao certo sua idade e jamais conheceu seu pai - só resta o desterro. Ele é obrigado a embarcar numa terrível jornada que mudará para sempre sua vida, rumo ao "recém-descoberto" Brasil. Um paraíso ou um lugar perverso? A única maneira de saber é adentrar as brenhas desse mataréu sem fim, em que a sobrevivência e a sorte andam de mãos dadas, e os encontros deixam uma marca indelével nas almas que por ele se aventuram.

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    Coisas de Mineira31/03/2021Resenhou um livro
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    Fragosas Brenhas do Mataréu, do escritor Ricardo de Azevedo, foi vencedor do Prêmio Jabuti de 2014 na categoria Infanto-Juvenil, tendo sido publicado pela Editora Ática. Um romance de formação, que acompanha parte da juventude de um português de cerca de 15 anos, no século XVI, que tem a vida transformada ao ver a mãe ser acusada pela inquisição por prática de bruxaria. Por serem pobres, o agora órfão fica à disposição do rei, que o envia para as terras brasileiras. Depois de muitas tribulações a bordo da nau Nova Conceição, ele naufraga e vem parar na costa brasileira, terra amaldiçoada, onde o diabo reina em seus afazeres – é uma visão recorrente de muitos portugueses, tementes à Deus, e que viam a travessia ao novo continente como uma condenação. Para sua sorte, e por ter aprendido muito com sua mãe sobre plantas, acaba se embrenhando na mata, em busca de abrigo e comida. E assim vamos acompanhando o jovem, que passa por todas as agruras da adolescência, pela descoberta da sexualidade, e tem de virar adulto para enfrentar tantas adversidades em terras brasis. “– Gosto de vosmecê desdezinho o brilhabrilhoso dia quando no arraial pela primeira vez nossos olhos se casaram! – E disse mais: – Se vosmecê encontrar um dia a morte vai sair de sua boca um beija-flor escapar feito frecha. Depois um pé de vento vai soprasoprar e girar e gemer e ventar ventando com tamanha força que, mesmo longelazinho, logo vou eu saber.” Já na apresentação de Fragosas Brenhas do Mataréu, o autor relata seu interesse pelo período colonial brasileiro, e de sua extensa pesquisa sobre os aspectos históricos e linguísticos, e o deslumbramento e medo do olhar de alguém que aportou no Brasil nesse período. Por conta disso, a linguagem é poética, e pode levar um pouco de tempo para o leitor se adaptar, uma vez que o autor procurou se assemelhar – mas não reproduzir, a linguagem e as “formas de falar recorrentes naquele tempo. “Contou mais tarde o padre Simão, cheio de medos e preocupações, que, na capela, durante a reunião dos principais do arraial, garantiu a senhora dona viúva que uma situação tão malazarada e jamais vista só podia ser obra do manfarrico, do manes, do asmodeu, do satanás, do sujo que não sofre quando vê alguém sofrer.” O jovem português se mostra um ótimo contador de estórias, e por conta disso temos estórias dentro da estória. Além dele, a jovem Jurecê traz muitas fábulas de sua tribo, que fazem uma contraposição com as narrativas cristãs apresentados pelo rapaz. “A tudo assistiram, por detrás da moita a surucucu e o sapo. -Pois não disse eu? – exclamou a cobra – Não é a peçonha! O que aos homens maltrata, pica, fere, envenena e mata é o medo!” Outra passagem de Fragosas Brenhas do Mataréu que desperta interesse é quando o narrador e Mané Mulato são feitos prisioneiros por índios selvagens, junto com o judeu Diogo Caldeirão. Acontece que os índios são antropófagos, e a índia Ibirité tenta explicar por que os índios mantém sua cultura – o que suscita a discussão sobre diferenças étnicas e o choque cultural entre índios e europeus. Mas é nas descobertas do jovem acerca daquele pedaço de mundo novo, nas relações com personagens – índios, mamelucos, negros, mestiços, judeus cristãos-novos, as relações de poder numa terra com um rei distante, que a estória se concentra e dirige nosso olhar para a formação do nosso país. Em como as vilas se formavam, como bandeirantes se embrenhavam pelo mataréu em busca do ouro, nos animais que acabaram com algumas dessas vidas – e até nas brincadeiras dos bugios com esse novo animal, que viria a se tornar seu principal predador. Mas ainda com um olhar penitente e cheio de vida, na ingenuidade e na crença de que é possível fazer melhor – nosso narrador vai aprendendo e ampliando seu mundo. “Impressionou-me deveras perceber o poder que simples narrativa podia ter. De um lado, fazer meu coração sentir-se de alguma forma vingado. Ao mesmo tempo, fazer pensar e meditar toda a gente do povoado sobre as fraudes e torpezas que no mundo podia haver.” Acima de tudo, Fragosas Brenhas de Mataréu mostra os primeiros anos de formação do Brasil, trazendo a discussão da colonização, da miscigenação dos povos e, consequentemente, de culturas, crenças, no que se torna o amadurecimento do narrador, mas que pode ser facilmente transposto para as terras de Santa Cruz! Por: Maísa Carvalho Site: www.coisasdemineira.com/fragosa-brenhas-de-matareu-ricardo-azevedo-resenha/

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