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    Lição de coisas -

    Carlos Drummond de Andrade

    José Olympio
    2024
    152 páginas
    5h 4m
    ISBN-13: 9786558471219
    Português Brasileiro
    4.2
    121 avaliações
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    Lição de coisas retorna ao catálogo da Editora José Olympio em edição especial, com novo projeto gráfico, nova fixação de texto e conteúdo extra. Se o gosto de Drummond pela experimentação já se notava em poemas como No meio do caminho, de Alguma poesia, seu livro de estreia, neste Lição de coisas esse fazer se intensifica. A partir de provocações colocadas pelo concretismo, o poeta itabirano aqui se abre para explorar de maneira mais intensa forma e conteúdo – em especial, o conteúdo visual e sonoro –, “sem entretanto aderir a qualquer receita poética vigente”, como mineiramente se sublinha na nota da primeira edição. As nove partes que compõem Lição de coisas – Origem, Memória, Ato, Lavra, Companhia, Cidade, Ser, Mundo e Palavra – representam os fundamentos da poética drummondiana: a terra, a família, as lembranças, os afetos, as amizades, as admirações, a consciência dos problemas do homem e dos perigos do mundo. Os poemas que aqui se encontram são dos mais conhecidos de Drummond: O padre, a moça, levado para o cinema pelo diretor Joaquim Pedro de Andrade, e Para sempre, belo canto de louvor às mães que circula nas redes sociais sempre que se quer homenageá-las. Esta nova edição reúne também uma dedicatória do poeta para a esposa, Dolores, e outra para a filha, Maria Julieta, e sua família; a crônica Livros novos, que Drummond publicou no jornal Correio da Manhã; e quatro poemas (A música barata, Cerâmica, Descoberta e Intimação), constantes, como inéditos, na Antologia poética do autor, publicada em 1962, e incluídos no Lição de coisas a partir da segunda edição, lançada em 1965. Com esta edição, convidamos leitores e leitoras a desfrutar poemas que, para além da experimentação, compreendem temas caros a nosso querido poeta, como a memória, o humor e a mineração de si mesmo e do outro. Percebe-se assim que, para além de qualquer observação sobre a técnica de seus textos, o que encontramos é muitas vezes a humanidade mais singela. Sua expressão poética simples, porém sempre coesa, ainda nos espanta pela ternura. Esta lição, talvez por isso, fica e permanece. São poemas que, como pequenas joias, tornam-se cada vez mais valiosos “na correnteza esperta do tempo”. “Drummond é antes de mais nada um maker, um inventor.” – Haroldo de Campos

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    @psi.adriana.scarpin picture
    @psi.adriana.scarpin26/06/2016Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    O padre e a moça

    "O padre furtou a moça, fugiu Pedras caem no padre, deslizam A moça grudou no padre, vira sombra, aragem matinal soprando no padre. Ninguém prende aqueles dois, Aquele um Negro amor de rendas brancas. Lá vai o padre, atravessa o Piauí, lá vai o padre, bispos correm atrás, lá vai o padre, lá vai o padre lá vai o padre lá vai o padre, diabo em forma de gente, sagrado. Na capela ficou a ausência do padre E celebra a missa dentro do arcaz. Longe o padre vai celebrando vai cantando todo amor é o amor e ninguém sabe onde Deus acaba e recomeça. Forças volantes atacam o padre, quem disse que exércitos vencem o padre? Patrulhas rendem-se O helicóptero desenha no ar o triângulo santíssimo, o padre recebe bênçãos animais, ternos relâmpagos douram a face da moça. E no alto da serra O padre entre as cordas da chuva o padre no arcano da moça o padre. Vamos cercá-los, gente, em Goiás Quem sabe se em Pernambuco? Desceu o Tocantins, foi visto em Macapá Corumbá Jaraguá Pelotas em pé no caminho da BR 15 com seu rosário na mão lá vai e a moça vai dentro dele, é reza de padre. Ai que não podemos contra vossos poderes guerrear ai que não ousamos contra vossos mistérios debater ai que de todo não sentimos contra vosso pecado o fecundo terror da religião. Perdoai-nos, padre, porque vos perseguimos. E o padre não perdoa: lá vai levando o Cristo e o Crime no alforje e deixa marcas de sola de poeira. Chagas se fecham, tocando-as, filhos resultam de ventre estéril mudos e árvores falam tudo é testemunho Só um anjo de asas secas, voando de Crateús, senta-se à beira-estrada e chora porque Deus tomou o partido do padre. Em cem léguas de sertão é tudo estalar de joelhos no chão é tudo implorar ao padre que não leve outras meninas para seu negro destino ou que leve tão leve que ninguém lhes sinta falta, amortalhadas, dispersas na escureza da batina. Quem tem sua filha moça padece muito vexame; contempla-se numa poça de fel em cerca de arame. Mas se foi Deus quem mandou? Anhos imolados não por sete alvas espadas mas por um dardo do céu: que se libere esta presa à sublime natureza de Deus com fome de moça. Padre, levai nossas filhas! O vosso amor, padre, queima como fogo de coivara não saberia queimar. E o padre, sem se render ao ofertório das virgens, lá vai, coisa preta no ar. Onde pousa o padre é Amor-de-Padre onde bebe o padre é Beijo-de-Padre onde dorme o padre é Noite-de-Padre mil lugares-padre ungem o Brasil mapa vela acesa. Mas o padre entristece. Tudo engoiva em redor. Não, Deus é astúcia, e para maior pena, maior pompa. Deus é espinho. E está fincado No ponto mais suave deste amor. Se toda a natureza vem a bodas, e os homens se prosternam, e a lei perde o sumo, o padre sabe o que não sabemos nunca, o padre esgota o amor humano. A moça beija a febre do seu rosto. há um gládio brilhando na alta nuvem que eram só carneirinhos há um instante. – Padre, me roubaste a donzelice ou fui eu que te dei o que era dável? Não fui eu quem te amei como se ama Aquilo que é sublime e vem trazer-me, rendido, o que eu não merecia mas amava? Padre, sou teu pecado, tua angústia? Tua alma se escraviza à tua escrava? És meu prisioneiro, estás fechado em meu cofre de gozo e de extermínio, e queres liberar-te? Padre, fala! ou antes, cala. Padre, não me digas que no teu peito amor guerreia amor, e que não escolheste para sempre. Que repórteres são esses entrevistando um silêncio? O Correio, Globo, Estado Manchete, France-Presse, telef otografando o invisível? Quem alça cabeça pensa e nas pupilas rastreia uma luz fosforescente responde não? Quem roga ao padre que pose e o padre posa e não sente que está posando entre secas oliveiras de um jardim onde não chega o retintim deste mundo? E que vale uma entrevista se o que não alcança a vista nem a razão apreende é a verdadeira notícia? É meia-treva, e o Príncipe baixando entre cactos sem mover palavra fita o padre na menina-dos-olhos ensombrada. A um breve clarear, o Príncipe, em toda sua púrpura como só merecem defrontá-lo os que ousam um dia. Os dois se medem na paisagem de couro e ossos estudando-se. O que um não diz outro pressente. Nem desafio nem malícia nem arrogância ou medo encouraçado: o surdo entendimento dos poderes. O padre já não pode ser tentado. Há um solene torpor no tempo morto, e, para além do pecado, uma zona em que o ato é duramente ato. Em toda a sua púrpura o Príncipe desintrega-se no ar. Quando lhe falta o demônio e Deus não o socorre; quando o homem é apenas homem por si mesmo limitado, em si mesmo refletido; e flutua vazio de julgamento no espaço sem raízes; e perde o eco de seu passado, a campainha de seu presente, a semente de seu futuro; quando está propriamente nu: e o jogo, feito até a última cartada da última jogada. Quando. Quando. Quando. Ao relento, no sílex da noite, os corpos entrançados transfundidos sorvem o mesmo sono de raízes e é como se de sempre se soubessem uma unidade errante a convocar-se e a diluir-se mudamente Mas de rompante a mão do padre sente o vazio do ar onde boiava a confiada morna ondulação A moça, madrugada, não existe O padre agarra a ausência e eis que um soluço humano, desumano e longiperto trespassa a noitidão a céu aberto A chama galopante vai cobrindo um tinido de freios mastigados e de patas ferreadas, e em sete freguesias passa e repassa a grande mula aflita. Urro de fera fúria de burrinha grito de remorso choro de criança ? Por que Deus se diverte castigando? Por que degrada o amor sem destruí-lo? e a cabeça da mula sem cabeça ainda é o rosto de amor, onde sem sigilo a ternura defesa vai flutuando? Um rosto de besta entre as ciências do padre entre as poderosas rezas do padre nenhuma para resgatá-lo Resta deitar a febre na pedra e aguardar o terceiro canto do galo No barro vermelho da alva a mão descobre o dormir de moça misturado ao dormir de padre. E já sem rumo prosseguem na descrença de pousar, clandestinos de navio que deitou âncora no ar Já não se curvam fiéis vendo réprobo passar, mas antes dedos em sustos implantam a cruz no ar A moça, o padre se fartam da própria gula de amar O amor se vinga, consome-os laranja cortada no ar. Ao fim da rota poeirenta ouve-se a igreja cantar Mas cerraram-se-lhe as portas e o sino entristece no ar. O senhor bispo, chamado com voz rouca de implorar, trancou-se na sua Roma de rocha, castelo de ar. Entre pecado e pecado há muito de epilogar. Que venha o padre sozinho, o resto se esfume no ar. Padre e moça de tão juntos não sabem se separar. Passa o tempo no destinguo entre duas nuvens no ar. E de tanto fugir já fogem não dos outros mas de sua mesma fuga a distraí-los. Para mais longe, aonde não chegue a ambição de chegar: área vazia no espaço vazio sem uma linha uma coroa um D. A gruta é grande e chama por todos os ecos organizados. A gruta nem é negra de tantos negrumes que se fundem nos ângulos agudos a gruta é branca, e chama. Entram curvos, como numa igreja feita para fiéis ajoelhados. Entram baixos terreais na posição dos mortos, quase. A gruta é funda a gruta é mais extensa do que a gruta o padre sente a gruta e o padre invade a moça a gruta se esparrama sobre o musgo, o calcário, o úmido medo à maneira católica do sono. Primas de luz primeira despertando de uma dobra qualquer de rocha mansa. Cantar angélico subindo em meio a cega fauna cavernícola e dizendo de céus mais que cristãos sobre o musgo, o calcário, o úmido medo da condição vivente Que perdão mais solene se humaniza e chega à provação e paira em benção? Que festiva paixão lança seu carro de ouro e glória imperial para levá-los à presença de Deus feita sorriso? Que fumo de suave sacrifício lhes afaga as narinas? Que santidade súbita lhes corta a respiração, com visitá-los? Que esvair-se de males, que desfal ecimentos teresinos? Que sensação de vida triunfante no empalidecer de humano sopro contingente? Fora ao crepitar da lenha pura e medindo das chamas o declínio, eis que perseguidores se perseguiam."

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    Carlos Drummond de Andrade

    Nasceu em Minas Gerais, em uma cidade cuja memória viria a permear parte de sua obra, Itabira. Posteriormente, foi estudar em Belo Horizonte e Nova Friburgo com os Jesuítas no colégio Anchieta. Formado em farmácia, com Emílio Moura e outros companheiros, fundou <i>A Revista</i>, para divulgar o modernismo no Brasil. Durante a maior parte da vida foi funcionário público, embora tenha começado a escrever cedo e prosseguido até seu falecimento, que se deu em 1987 no Rio de Janeiro, doze dias após a morte de sua única filha, a escritora Maria Julieta Drummond de Andrade. Além de poesia, produziu livros infantis, contos e crônicas.

    198 Livros
    2.101 Seguidores
    Minas Gerais, Brasil

    Carlos Drummond de Andrade