Dentro do seu carro, num estacionamento, Mathilda retira com cuidado a maquiagem do rosto, o vestido apertado, o sapato de salto altíssimo. Veste uma roupa de ginástica e então já não é Mathilda, mas Laurent, marido de Solange e pai de dois filhos. Quando percebe que incorporar uma persona feminina uma vez por semana já não é mais o suficiente, decide completar a transição. E abrir o jogo para a esposa e os filhos é só o começo dessa busca por sua verdade interior.
Ponto Cardeal -
Léonor de Récondo
A Desinformação e a Velada Transfobia de Léonor
“Mas há outra coisa que quero que você saiba. Algo de que nunca duvidei. Se nunca me senti homem, sempre me senti pai” A história começa quando Mathilda/Laurent tira a maquiagem e troca de roupa dentro do carro em um estacionamento imerso em penumbra e solidão, antes de se juntar à família na sua casa. Como mulher, ela sabe disso desde a infância, mas mente para si mesma e para os outros, enquanto vive uma vida bastante comum. O protagonista é completamente comum, igual a qualquer pai, colega de trabalho ou amigo. Laurent não é um ativista, não é um artista performático que mora em um loft num bairro descolado. É um homem de classe média, tem um trabalho comum, uma vida comum, quase entediante. Com essa escolha de abordagem, Récondo consegue, ao mesmo tempo, nos aproximar do seu protagonista e tirar os transexuais do imaginário de figuras marginais e marginalizadas. Mas, quem dera a vida fosse um morango... Ao escrever sua história, Récondo optou por abordar o tema da transidentidade. Consciente ou não, a autora, ao tentar traduzir em palavras a realidade de uma minoria sem representatividade, esbarrou num risco: alimentar um estereótipo que poderá então fixar-se na mente de quem irá ler o seu livro. Desde as primeiras linhas desse romance, pensei erroneamente estar imerso no mundo drag ao lado da personagem principal que me é apresentada como Mathilda. Nas primeiras linhas do primeiro capítulo ela sai de um bar dançante: o Zanzi. Ela cede seu lugar para Lauren assim que entra no carro e tira a roupa, a maquiagem e a peruca. Neste momento, tive a impressão de está ocorrendo dentro de Lauren uma dissociação entre ela e um alter ego, Mathilda, reforçando a ideia de que o livro dará a volta ao mundo drag. Porém, a última frase do capítulo de repente criou uma confusão na minha mente quando a personagem me revela se chamar Laurent, e que Mathilda irá desaparecer a partir de então. A situação, subitamente invertida, me fez entender que a personagem não se sente nada confortável com sua identidade de gênero, e que a autora formularia hipóteses sobre o tema da transidentidade. Ledo engano!!! A imprecisão que caiu sobre mim durante o primeiro capítulo ganhará cada vez mais importância quando a dança, que abre o romance e que, portanto, parece ter um lugar primordial na vida da personagem, for apenas parcialmente – se não brevemente – mencionada em todo o resto da história. A autodescoberta não será explorada através da expressão artística como inicialmente pensei. Na verdade, todo o resto do romance será dedicado à transição de Lauren Duthillac e às fraturas que sua decisão causará em seu núcleo familiar. Quando eu percebi que o romance girava em torno da identidade de gênero, rapidamente fui surpreendido pela falta de informação da autora sobre o tema, perceptível desde o primeiro capítulo e que perdurou até o último páragrafo dessa horrível história. Outro problema gritante que encontrei nesse romance foi o fato da autora durante a narrativa fazer malabarismos entre pronomes masculinos e femininos para descrever sua personagem principal, que afirma ser uma mulher. Ora se ela é mulher, o pronome sempre será feminino. Outro grande problema desse romance: Lauren só é considerada mulher quando está vestida de Mathilda. Explico-lhes: Laurent é um homem , que antes da decisão de transacionar, escapava para sua vida sigilosa como Mathilda. Quando finalmente resolveu fazer a transição, nasceu Lauren. Mas, mesmo quando estava em processo de transição, Lauren não era considerada totalmente mulher. Por isso, travestia-se. Essa autora não soube como conduzir sua própria história. Através da busca pela identidade de gênero da sua personagem principal, a autora descreverá uma necessidade em relação à feminilidade que não só pepertua as normas de gênero, mas que também levará o seu leitor (aquele que é leigo sobre esse tema) a acreditar que uma mulher transexual precisa se “travestir” para ser considerada mulher. Esse pensamento de Récondo transmite uma visão errônea de transidentidade. A transição não equivale à mudança completa de uma pessoa, mas sim à transição para outro gênero. Quando uma pessoa transgênero decide iniciar uma transição, ela não precisa provar nada e se conformar aos padrões que a sociedade lhe impõe para ser validada como tal. Lauren se sente uma mulher, então ela é uma mulher. Um dos muitos problemas presentes nesse livro, é que Lauren só é considerada mulher no final do romance, quando esta parte para ser operada na Bélgica. Isso obriga o leitor que é leigo sobre essas questões a pensar que, enquanto ela não tiver sido operada, é impossível considerá-la a mulher que ela diz ser. Constantemente, a autora incute nos seus parágrafos a desagradável ideia de que sexo equivale a gênero. A noção de “ir até o fim” presente nas páginas deste romance é super problemática. Por que falar em ir até o fim? Quão longe? Ao utilizar estes termos, considera-se que a sua transição só terminará quando Lauren for operada, o que mais uma vez nos remete aos órgãos genitais de uma pessoa, embora estes não definam de forma alguma a identidade de gênero. Isso contribui para o reforço de uma visão socialmente padronizada. Outro grande problema desse romance horrível: cadê a construção de arco de personagem da protagonista? Porque a autora dedicou capítulos inteiros para nos contar o arco de Solange? Solange é a transfobia em forma de gente. Um capítulo inteiro e pouco saudável é dedicado à tristeza de Solange pelo fato de Lauren querer desesperadamente não ter mais órgãos genitais masculinos. Quando os dois estão na cama, Solange fica dizendo a si mesma que “ao lado dela, nesta cama, um dia estará uma mulher, com seios e pênis incluídos”. Com isso, marca mais uma vez o fato de Lauren ainda não ser considerada mulher pela esposa que, além disso, parece desconhecer completamente o seu sofrimento. A autora consegue colocar a violência e o sofrimento dos demais personagens à frente de Lauren, cujos sentimentos são apenas brevemente mencionados. É uma escolha questionável no sentido de que todo o livro gira em torno de algo específico da protagonista: sua transição, sua jornada, suas escolhas. Os sentimentos de Lauren ficam em segundo plano enquanto os de Solange, por exemplo, são estudados em vários capítulos. Ao fazer isso, a personagem trans é constantemente levada a se sentir culpado por sua transição e ela própria dirá que está fazendo com que aqueles ao seu redor sofram por causa disso. Ao omitir os sentimentos de Lauren e, inversamente, ao desenvolver excessivamente os de Solange, Récondo faz com que a primeira apareça como a vilã que destrói sua família por simples escolha, e a segunda como uma vítima que sofre do egoísmo de seu ‘marido’. O fato de a transição não ser uma escolha, mas sim uma necessidade vital para Lauren não foi explicado. A força e a coragem utilizadas para finalmente ser ela mesma também não foram demonstradas. A autora deixa, portanto, a ideia de que as personagens cisgêneros são as que mais sofrem, ignorando completamente o sofrimento que a personagem central vivencia. Realmente, isso só poderia vir de uma mente de uma mulher cisgênero e heterossexual, que infelizmente, terá bastante visibilidade sobre esse tema da qual ela demonstrou não ter domínio algum. O assunto poderia ter sido abordado de forma muito mais respeitosa, se a autora tivesse se esforçado para se educar sobre os caminhos da transição, da disforia de gênero ou até mesmo da transfobia; e se ela tivesse evitado termos ofensivos e desatualizados (como “mudança de sexo”, por exemplo). Para mim, a principal e verdadeira raiz do problema aqui levantado é que a autora optou por escrever sobre um assunto que não lhe diz respeito, pintando um retrato injusto da transidentidade, desprezando a sua protagonista ao torná-la um fardo – para ela, bem como para aqueles que a rodeavam. Poderia questionar a literatura e o seu lugar no pensamento moral, se, é claro, puder falar de uma literatura que pode ou deve possuir um dever de moralidade. Isto permitiria a mim levantar uma importante questão literária: a ética da ficção e os limites que esta poderia ter – ou não. Nesse sentido, a mim, pareceu-me que a autora veladamente escreveu um romance para externalizar sua transfobia internalizada em um assunto que lhe é totalmente desconhecido. 🇫🇷🤬🤮🤡💩🕰⌛️
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