Primeiro livro de crônicas do cartunista Belmonte.
Assim falou Juca Pato - Belmonte - Aspectos divertidos de uma confusão dramática
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Ver maisBelmonte e a confusão mundial
É comum que, ao falarem da crônica (quando se resolvem a isso), os críticos literários aludam à ligação do próprio termo crônica com o grego khrónos, utilizado para se referir ao tempo cronológico. Assim, a crônica estaria indissociavelmente ligada à noção de tempo, seja por registrar a sua passagem, seja por oferecer um testemunho sobre a época de sua escrita. Curiosamente, os mesmos críticos literários também tendem a desvalorizar o que chamam de perecível na crônica, que é, basicamente, a influência do jornalismo em seu conteúdo tais críticos caracterizam a crônica como a mistura de jornalismo e literatura, mas, de maneira paradoxal, entendem que o aspecto jornalístico prejudica a crônica, por fazê-la envelhecer. Se é verdade que todas as coisas envelhecem, também o é que algumas envelhecem de modo pior que outras principalmente no campo das ideias. Comentarista de sua época, ainda que de forma descompromissada, o cronista está sempre opinando e palpitando. De tanto falar, porém, não espanta que às vezes diga coisas que a sociedade já não aceita. São, por exemplo, opiniões machistas, racistas, homofóbicas Nesse resgate de cronistas que escreviam antes de Rubem Braga, vez ou outra topamos com algum trecho complicado e que não poderia ser dito hoje impunemente. É que os tempos são outros, a sociedade, apesar de tudo, evoluiu a crônica apenas deixou registrado como ainda se pensava na época. Nem pensem os cronistas atuais que escaparão da mesma sina: fatalmente estão dizendo hoje coisas perfeitamente aceitáveis, mas que serão intoleráveis daqui a algum tempo. Verdade que também há uma chance de acertar veja-se o caso de Carmen Dolores, que em suas crônicas apostou na possibilidade do divórcio, e o tempo apenas veio lhe dar razão. Muitas vezes, esse processo de registrar uma época ocorre de modo tão natural que o cronista não se dá conta de que é exatamente isso que se está fazendo. É preciso certo distanciamento para perceber como era uma época e o que ela representava na trajetória do mundo. Há, porém, cronistas de olhar um pouco mais apurado que sabem o que estão fazendo. Belmonte é um deles. Inexplicavelmente esquecido, esse paulista era caricaturista, cartunista, pintor, ilustrador e cronista. De fato, ele é autor de dois livros de crônicas, o primeiro deles chamado Assim falou Juca Pato (1933). Nessas crônicas, Belmonte olha à sua volta e é como se dissesse: Esta é a minha época, este é o mundo hoje e assim são as pessoas atuais. Historicamente falando, o mundo em que Belmonte escrevia era o do período entreguerras, quando, passada a ilusão de um bem-estar geral, vivia-se os efeitos do crack da bolsa de 1929 e a emergência de governos autoritários na Europa. No Brasil, vivia-se os primeiros anos da chamada Era Vargas, após Getúlio ter promovido uma revolução no ano de 1930. Enquanto uns tomavam o partido deste ou daquele lado, Belmonte olhava para tudo o que acontecia no mundo e chegava à inevitável conclusão de que ele estava virado pelo avesso e imerso na mais profunda confusão. Constava que se vivia um século de inquietude universal e ia registrando diariamente na Folha da Noite os disparates de que tomava conhecimento. É verdade que uma crônica antiga, de um Machado de Assis, ou mesmo de um João do Rio, frequentemente depende de notas de rodapé para uma maior compreensão, tal é a distância entre o momento de escrita e o de leitura. Muitas referências realmente envelhecem, e desse modo é possível constatar, por meio da crônica, a voragem com que o tempo apaga tudo. Mais do que aspectos de linguagem, que certamente também mudam com o passar dos anos, a crônica é útil por permitir que se perceba a evolução do pensamento de uma sociedade. É o gênero em que o escritor se expõe de forma mais aberta, dizendo francamente o que pensa de tudo aquilo que vê, sente ou experimenta e isso, no fim das contas, é um grande risco. Que os disparates eram incontáveis prova o fato de que a crônica era diária e ainda lhe sobravam assuntos. Ao reunir essas crônicas em livro, Belmonte, consciente do que fazia, pretendia prestar um serviço aos historiadores, que nele encontrariam episódios da história do mundo naqueles dias de subversão social, política, econômica, financeira e doméstica. Ao folhear essas crônicas, os hipotéticos historiadores encontrarão expostas de maneira bem divertida várias contradições do governo Vargas que provavelmente não foram tratadas do mesmo modo nos jornais da época entre elas, a confissão de que não havia programa de governo (logo, tampouco o que cumprir) e as cerimônias monárquicas da República Nova. Vamos fazer outra revolução?, pergunta o cronista, irônico. Suas crônicas abrangem um período em que se esperava uma solução brasileira prometida pelo governo, que tinha um caráter nacionalista e, ao mesmo tempo, flertava com o fascismo à italiana. A rejeição ao tipo de governo nacionalista e autoritário é um dos acertos que o tempo trouxe para Belmonte. Dizia que o nacionalismo era capaz de levar o mundo a um épico sururu, mas não lhe davam crédito. Bem antes da Segunda Guerra, ele já escrevia, com acerto: O mundo, hoje, está se embalando na doce ilusão de que apenas os regimes de força poderão salvá-lo, quando a verdade é que não há mais força humana capaz de deter a derrocada da civilização. Talvez isso possa sugerir que suas crônicas sejam sérias e sisudas, mas não é o que se verifica. Belmonte tem um estilo que lembra Antônio Torres, cronista do Rio, também jogado ao ostracismo, e que, contudo, era muito mais ácido em suas crônicas. Mas em ambos os casos os cronistas buscam efeitos cômicos ao tratar do absurdo político em situações cotidianas. Belmonte tem fama de fazer crônicas humorísticas, o que não é suficiente para definir seu estilo. Um de seus personagens chega a dizer: Basta pôr um título humorístico que a crônica fica engraçada. Há casos em que se chama de humorista quem apenas usa um tom divertido para fazer comentários que fogem do senso comum, mas ainda são verdadeiros. Torres é tratado como polemista, Belmonte como humorista, e nos dois casos isso pode ser só uma estratégia para não se refletir sobre o conteúdo do que escrevem. Verdade que, pelo menos no caso de Belmonte, também há um punhado de crônicas cuja tema não é sério, mas simples comentários de fait divers, e, aí mais sim, mais perto de crônicas humorísticas. Muitas de suas crônicas estão bem ao gosto da chamada era de ouro da crônica e ele, frise-se, escreveu antes de Rubem Braga. São comentários descompromissados, com algumas reflexões filosóficas, mas sem grandes pretensões, com ares de conversa fiada mesmo um exemplo é a crônica sobre a recomendação de que as estrelas de Hollywood engordassem. Ao fazer isso, o cronista assume uma característica própria do gênero ao menos desde José de Alencar, a de questionar, ainda que implicitamente, o tratamento dispensado pela imprensa às notícias, ao mesmo tempo que explora novos sentidos e possibilidades para elas. E isso tudo em esboços, traços rápidos de pequenos detalhes, como convém à crônica. Quando se ocupa do noticiário político, sua crônica é uma forma de dialogar com as dores nacionais, expor o ridículo dos mandatários do país e, com isso, vingar a população. O jornal não pode dizer o que pensa, o que talvez gostasse de dizer. O cronista pode, e faz isso de forma criativa, com muito mais liberdade do que teria se escrevesse um artigo de opinião. Usando uma estratégia absolutamente machadiana, Belmonte apresenta em uma crônica a sua própria plataforma para concorrer ao cargo de interventor paulista. Também cria um Partido Situacionista (não importa que o governo não esteja comigo. Basta que eu esteja com o governo), e tudo é uma forma de fazer uma leitura crítica da realidade do seu tempo. Impagáveis são ainda as crônicas em que aborda as contradições da nossa burocracia, com destaque para Requerimento, na qual um cachorro escreve ao chefe de polícia de Niterói, e o cronista se diverte a valer quando comenta outro plano salvador dos outubristas, com a criação de um Tribunal de reclamações em tudo, Vargas merecidamente confrontado. Não era ainda o Estado Novo, do contrário ele nem poderia escrever o que escrevia, mas já havia censura nas artes, o que levava Belmonte a questionar: Que ideia faz um delegado de polícia do que seja Arte? Em que consiste, para um juiz, a Beleza?. E sobre o cinema: Quantos segundos deve durar um beijo para estar de acordo com os cânones?. Eram os disparates que ele colecionava Belmonte flagra um momento em que a vida na cidade se tornava cada vez mais áspera, ao mesmo tempo em que a miséria e a fome aumentavam. Era uma época, dizia, em que se tinha vergonha de ser bom, e na qual o coração órgão romântico não fazia mais que atrapalhar. Muito do que se acredita próprio do tempo atual já havia sido prenunciado pelo cronista. Quando analisava aspectos da confusão mundial, mais do que a brasileira, o cenário lhe parecia ainda mais desolador: considerava o mundo literalmente perdido, por ter falhado por completo a inteligência do ser humano. Melhor seria se fosse entregue aos animais! Tudo isso ele dizia antes que a Segunda Guerra Mundial começasse e lhe desse ainda mais razão. Atento, Belmonte conseguia perceber que o momento era de ambições e que os povos mais ou menos armados andavam por aí atrás de pretextos para conflitos rendosos. Identificava-se que em tudo havia uma busca pelo ouro, que ninguém sabia onde exatamente estava, e esse cenário lhe parecia tão trágico que sentenciou: Ou o mundo mata o ouro, ou o ouro mata o mundo. Decerto o ouro não foi morto até agora e o mundo ainda continua a existir, mas quem seria capaz de dizer que, nesse processo, não temos perdido muito do que chamamos de humano? Há quem esteja realmente satisfeito com a maneira como a humanidade se comporta? Tem-se a imagem de que antigamente as coisas eram melhores, mas Belmonte diz, nos anos 1930: Há, por toda parte, uma incompreensão absoluta, um mal-estar indisfarçável, uma desconfiança geral e, enquanto os povos se olham com animosidade, os indivíduos se entreolham com desconfiança. Ninguém acredita em ninguém. As palavras, dia a dia, perdem o seu sentido natural, etimológico, e as próprias ações humanas vão indo pela mesma trilha. O que era bom ontem, hoje não o é mais; o que era mal passou a ser bom. A virtude ingressou no rol das coisas imprestáveis e a honestidade é atributo dos trouxas. Havia uma consciência do cronista de que a sua geração havia levado o mundo a uma falência irremediável. Era preciso reconhecer-se como causador da épica bagunça em que se vivia. E Belmonte se questionava como viver em mundo assim. Suas crônicas são diretamente ligadas ao momento em que vivia, registram tudo o que observava e ele não gostava do que via. Certamente os jornais da época não adotavam semelhante tom, o de que o ser humano estava destruindo a si mesmo e tudo o que havia levado séculos para construir. A crônica, nessa perspectiva, poderia servir como um testemunho mais fidedigno de uma época, por revelar aquilo que se escondia atrás de camadas de retórica e do mito da imparcialidade jornalística. Registre-se que Belmonte não apresenta soluções para os problemas identificados sua crônica não é, pois, a mera pretensão de um iluminado que alega ter as respostas que a humanidade precisa. É bem ao contrário: A verdade é que este livro não pretende salvar coisa nenhuma. É a única qualidade que ele tem. E, na verdade, o que exatamente poderia ser feito? A humanidade se apegava a certas ideologias como tábua de salvação, mas todos os tipos de tábuas se pretendem absolutos e, por serem assim, combatem-se uns aos outros, aumentando a divisão entre as pessoas. Belmonte se confessava impotente, mas é essa sua impotência que bem traduz, por meio da crônica, o que era viver nos primeiros anos da década de 1930. Dois anos depois desse excelente Assim falou Juca Pato, Belmonte reuniu nova seleta de crônicas, sob o nome de Ideias de João Ninguém. A guerra estava ainda mais perto, já era até a aposta de alguns videntes da época, mas o cronista dizia que já sabia que isso ocorreria desde a guerra anterior. Ah, a loucura de quem inventa coisas para o próprio extermínio! Nesse segundo livro de crônicas, Belmonte continua a comentar fatos e notícias tidos como absurdos, tanto internacionais como nacionais. Ele esmiuça questões do desgoverno Vargas, ainda que não pudesse enfrentar abertamente aquele que em breve seria oficialmente ditador mas está lá a sua posição firme contra esse governo, em uma postura que hoje é bem vista. Ao retratar a sua época, o cronista registra alguns instantes de intensa dramaticidade vividos pelos brasileiros, instantes que normalmente fariam chorar, mas que, no Brasil, faziam com que a população rebentasse em gargalhadas épicas. Não haverá no mundo uma polícia para prender o Brasil?, é o que se pergunta o cronista, enquanto o povo pena em sua luta pela vida. Em Ideias de João Ninguém, a impressão é de que Belmonte adere mais à notícia, isto é, cede com mais frequência ao circunstancial, mas nem por isso se pode dizer que esse conjunto de crônicas não seja, igualmente, um eloquente testemunho daquele período e até da condição humana, posto que, quase um século depois, ainda vivemos problemas similares. O noticiário fornece a maior parte dos temas do cronista, que com base nele expõe o ridículo de diversas situações da vida pública brasileira ou mundial, vez ou outra até se valendo da ficção, como em um pequeno conto de Natal. Mais preso aos fatos e aos disparates, porém, talvez nesse livro as estratégias de Belmonte sejam menos eficazes que no livro anterior. Entre os grandes momentos, há um em que, de certa forma, o cronista prevê a inclusão de anúncios em meio a notícias. Belmonte fala ainda sobre o crime de ser bom, sugestão de uma inversão de valores que já havia sido exposta em Assim falou Juca Pato. Ao final, há um curioso conto histórico envolvendo Dom Pedro, peça bem diversa do restante da obra. As duas obras, porém, são significativas e permitem inserir Belmonte entre os cronistas mais relevantes do seu período. Sua produção estava bastante vinculada à prática jornalistica, tanto pelo tema quanto pela forma, que incluía, por exemplo, respostas às cartas de leitores, mas ele não deixava de conseguir admiráveis efeitos estéticos ao ver criticamente o mundo. Sua principal contribuição parece ser realmente esta: reconhecer que o período entreguerras era de confusão e incompreensão geral, suficiente para gerar um novo conflito (como gerou de fato), com o surgimento de ideologias autoritárias que, na prática, constituíam um rosário de maluquices, mas enxergadas pela maioria das pessoas como coisas certas e normais. Belmonte conseguiu esse grau de consciência mesmo imerso na realidade do seu tempo. Em poucos anos, o tempo revelaria que todo o pessimismo do cronista era justificado. E hoje as suas crônicas podem ser lidas como uma análise acurada de como era ser brasileiro e sujeito, ao mesmo tempo, aos disparates de Vargas e à ameaça dos regimes totalitários na Europa.
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