Filha do Mar é o segundo volume da série Mar Interno, iniciada em Maré de Mentiras. Recebido em cortesia do autor Roberto Campos Pellanda, é uma sequência que quebra a maldição do "segundos livros não são tão bons quanto primeiros", porque ô, como é bom!
Começando bem onde o primeiro terminou, Anabela está em apuros e Theo se aproxima da sua próxima missão. O destino de Asil permanece em mistério por boa parte do começo, sustentando a tensão e dando espaço para que as histórias dos outros protagonistas se desenvolva. O mundo de Anabela foi destruído, e ela precisa encontrar forças e um lugar em um espaço que não faz mais parte da sua realidade.
Filha do Mar é um livro muito político. Ela move as tramas, desenvolve os problemas e apresenta novas dores de cabeça, tudo isso enquanto acompanhamos o vívido desenvolvimento de personagens que se tornaram tão queridos.
O problema de falar sobre sequências é querer falar sobre muita coisa, mas precisar se segurar porque qualquer coisa pode perturbar a experiência de quem vai ler!
Anabela, Theo e Asil são o norte da história, mas esse norte aponta para três direções distintas. Anabela representa um dos pontos mais importantes desse segundo capítulo da trilogia, porque nela reside a resiliência e o recomeço. Theo está enfrentando maus bocados se passando por outra pessoa, e Asil (meu coitado favorito) luta para cuidar da criança a quem foi designado para proteger.
Assim como toda boa fantasia, o mundo acontece ao redor dos seus personagens. E nós nos sentimos parte dele justamente por isso. Quanto mais nos aventuramos nas missões pessoais dos protagonistas, mais entendemos sobre o universo em que eles existem - e os riscos que se apresentam a ele.
Anabela se mostrou uma força voraz. Aquele tipo de personagem que prospera no inesperado, e que não deixa nenhuma pessoa erguer a voz quando ela tem algo a dizer.
Os cenários deslumbrantes e as descrições ricas em detalhes voltam a enriquecer a narrativa. O autor finalmente nos apresenta a Astan, a grande cidade oriental, e ela se apresenta como outro ponto chave, o palco onde arcos serão desenvolvidos e resolvidos, onde conflitos podem começar e terminar. É aquele tipo de cidade que vive junto com os personagens.
Sem entregar demais, eu volto a dizer que Asil teve o meu arco favorito. Ele é o soldado reformado e carregado de culpa e relutância, o tipo de coitado que eu amo amar. Um personagem complexo, cujas decisões se interlaçam aos outros protagonistas sem nem perceber. Em muito ele me lembra o Dalinar, de O Caminho dos Reis, porque é uma força a ser respeitada, mas também é o próprio tormento.
A narrativa mantém aquele ritmo de perfeito equilíbrio entre ação, reação e marasmo. Nenhuma cena parece fora do lugar, e tudo acontece quando deve acontecer. Um determinado acontecimento perto do fim é o gancho para o último volume, daquele tipo que te esclarece tudo e deixa os personagens cientes da grande onda que está por vir.
Filha do Mar é um excelente segundo livro para o que promete ser uma trilogia espetacular. Maré de Mentiras nos apresentou ao mundo e seus personagens, Filha do Mar mostrou as consequências e o peso de escolhas, e o fim dessa sequência de acertos só pode ser um final arrebatador.