La chute du ciel - Paroles d'un chaman yanomami

    Davi Kopenawa, Bruce Albert

    Plon
    2010
    828 páginas
    1d 3h 36m
    ISBN-13: 9782259210683

    Un grand chaman et porte-parole des Indiens Yanomami offre dans ce livre un récit exceptionnel, à la fois témoignage autobiographique, manifeste chamanique et cri d'alarme contre la destruction de la forêt amazonienne. Il y relate à la première personne son histoire hors du commun et ses méditations de chaman face au contact prédateur de la frontière blanche à laquelle son peuple se trouve confronté depuis les années soixante. Ce livre a été écrit à partir de ses paroles, recueillies en langue yanomami, par un ethnologue avec qui il a lié une très longue amitié. Trois parties composent l'ouvrage : "Devenir autre" retrace sa vocation de chaman depuis l'enfance jusqu'à son initiation à l'âge adulte. Elle décrit par ailleurs toute la richesse d'un savoir cosmologique séculaire acquis grâce à l'usage de puissants hallucinogènes. "La fumée du métal" relate, à travers son expérience personnelle, souvent dramatique, l'histoire de l'avancée des Blancs dans la forêt, missionnaires, ouvriers, routiers, chercheurs d'or, et leur cortège d'épidémies, de violences et de destructions. Enfin, "La chute du ciel" rapporte son odyssée pour dénoncer la décimation de son peuple lors de voyages en Europe et aux Etats-unis. Emaillé de visions chamaniques et de méditations ethnographiques à propos des Blancs, ce récit débouche sur un appel prophétique qui annonce la mort des chamans et la chute du ciel pour dénoncer la dévastation de la forêt amazonienne par le "peuple de la marchandise".

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    Ana Sá06/05/2022Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    "Dormem muito, mas só sonham com eles mesmos"

    "Para nós, a política é outra coisa. São as palavras de Omama [demiurgo Omama, primeiro xamã] e dos xapiri [termo yanomami para designar tanto os xamãs, os homens-espírito –xapiri thëpë–, quanto os espíritos auxiliares –xapiri pë] que ele nos deixou. São as palavras que escutamos no tempo dos sonhos e que preferimos, pois são nossas mesmo. Os brancos não sonham tão longe quanto nós. Dormem muito, mas só sonham consigo mesmos". Os novos-velhos casos de genocídio em território Yanomami fizeram gritar as memórias que tenho deste livro, que, desde que li, se mantém firme no meu Top 3 de obras que me mudaram muito e para sempre. Realizei a leitura há bastante tempo, mas só agora venho arriscar uma resenha, a fim de, pura e simplesmente, fazer propaganda gratuita desta obra (sobretudo porque a tal lista da Folha mexeu com a curiosidade das pessoas). É uma leitura densa, que exige muito de nós, principalmente na sua primeira metade, mas que nos deixa absolutamente estupefatas. Trata-se de um texto escrito a quatro mãos: seu autor-narrador é o líder indígena Yanomami Davi Kopenawa, já seu escritor é Bruce Albert, etnólogo francês, nascido no Marrocos, responsável por traduzir, da língua indígena para o francês, um pouco mais de uma década de conversas e entrevistas (ou de "sequências de monólogos") realizadas com Kopenawa. A publicação original, na França, ocorreu em 2010, e somente cinco anos depois, em 2015, a obra veio a ser bravamente traduzida para o português por Beatriz Perrone-Moisés, tendo como cereja do bolo o brilhante prefácio assinado por Eduardo Viveiros de Castro. "A queda do céu" tem origem no desejo de Davi Kopenawa de "explicar essas coisas para os brancos". E não é difícil entendermos sua razão: num país historicamente marcado por um falar "sobre os indígenas", que por séculos foram objeto da narração dos não indígenas, a obra nos convida a um contato com os indígenas enquanto sujeitos de suas próprias histórias. E eu, mulher não indígena, jamais vou me esquecer da sensação de me perceber sendo narrada ali naquelas páginas. É quase impossível acompanhar Davi Kopenawa descrevendo "o povo da mercadoria” sem nos sentirmos patéticas. É revoltante ver o quanto os livros de História e a mídia não chegam nem perto de narrar à altura o desastre humano e ambiental decorrente da atividade mineradora. Ao nos descolonizar, este livro escancara o tamanho da nossa ignorância, além de nos colocar diante de vários dilemas éticos. Não me lembro onde vi/ouvi essa frase, mas uma das conclusões que tirei de "A queda do céu” foi justamente esta: como a colonização de pensamento nos emburreceu! Ainda que a questão do genocídio indígena seja transversal, há no livro um belíssimo convite ao cotidiano e às tradições Yanomami em geral. Um contato ímpar com sua cosmovisão. A descrição dos rituais xamânicos, por exemplo, é de arrepiar! Pode ser cansativo para algumas leitoras, pois Kopenawa caminha sempre devagar, investindo nas minúcias, nos entregando os detalhes… É também demorada a familiarização com expressões e termos da(s) língua(s) Yanomami. Mas a quem tiver paciência, o fechamento de alguns capítulos pode ser equivalente a um voltar para casa. Falo da minha experiência: no encerramento de algumas passagens, eu tive a sensação de estar voltando, cansada mas ainda anestesiada, ao meu sofá, tamanha era a sensação de ter viajado para dentro da floresta. A escrita de Kopenawa é generosa no modo como pinta as paisagens e as sensações de tudo que acontece ali, mas sem propor uma romantização ou um endeusamento dos povos indígenas. Este é outro ponto alto: Kopenawa não foge a temas polêmicos ou delicados quando eles aparecem. A segunda metade do livro torna-se mais dinâmica, sobretudo quando foca na consolidação do ativismo político de Kopenawa, a partir de 1980 mais ou menos. O teor dos relatos muda, pois os cenários e as pessoas são completamente diferentes, mas também ali há passagens muito marcantes. As situações envolvendo os compromissos de Kopenawa na América do Norte ou na Europa são interessantíssimas e continuam a propor olhares descoloniais na nossa forma de nos relacionar com as outras culturas. Um acontecimento, em específico, acho que na ocasião de uma visita que Kopenawa faz a um museu parisiense (não tenho o livro em mãos para confirmar qual era exatamente o museu), deveria ser leitura obrigatória nas escolas, inclusive. Sério, vocês vão se lembrar de mim quando chegarem a este capítulo, ele é f*%D demais! Eu realmente concordo com Eduardo Viveiros de Castro quando ele diz que “A queda do céu” é um “acontecimento”, e não meramente um texto. Na média, a leitura não é fluida, mas no todo, ela é arrebatadora. Temos aqui um livro de História do Brasil que nos liberta, em alguma medida, das amarras da história única que o eurocentrismo nos impôs. O período que marca os relatos que dão forma à obra, que vão da iniciação xamânica de Kopenawa até o amadurecimento de seu papel de líder indígena (se não me falha a memória, isso abrange, mais ou menos, o período de 1960/70 ao início dos anos 2000), nos dá uma outra visão de Brasil ao mesmo tempo que nos recorda que o pior da História se repete. As notícias atuais sobre o povo Yanomami poderiam ter sido retiradas dos “monólogos" de décadas atrás que Kopenawa já havia registrado em seu livro justamente com o objetivo de “explicar essas coisas para os brancos”. E ele explicou. Fomos nós que não entendemos nada. Será que ainda há tempo para aprendermos a sonhar um pouco mais longe?

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