“E, em minha loucura, encontrei tanto liberdade como segurança: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.” A obra é composta de várias parábolas, que falam sobre as muitas maneiras de ser ou não ser louco. As experiências do autodenominado "louco" são contadas em pequenas ficções, que devem ser lidas com atenção para a compreensão das mensagens. O Louco de Kalil Gibran, não se trata do doente, paciente de psiquiatria, mais do homem que se liberta do fardo de ser igual ao seu semelhante e descobre nessa libertação o quão maravilhoso é ser ele mesmo, livre de amarras, convenções. Versão bilíngue: tradução moderna e original em inglês.
O Louco - eBook Kindle
Khalil Gibran
O Louco - Khalil Gibran
COMO ME TORNEI UM LOUCO Você me pergunta como me tornei um louco. Foi assim: um dia, bem antes de muitos deuses nascerem, acordei de um sono profundo e descobri que todas as minhas máscaras haviam sido roubadas – as sete máscaras que confeccionei e usei em sete vidas –, e corri com o rosto descoberto pelas ruas lotadas, gritando: “Ladrões, ladrões, malditos ladrões”. Homens e mulheres riram de mim, e alguns correram para dentro de casa com medo. E, quando cheguei ao mercado da rua, um jovem no alto de uma casa gritou: “Ele é um louco”. Olhei para cima a fim de contemplá-lo; o sol beijou meu rosto descoberto pela primeira vez, e minha alma se inflamou de amor pelo sol, e eu não queria mais minhas máscaras. E, como se estivesse em transe, gritei: “Abençoados, que sejam abençoados os ladrões que roubaram minhas máscaras”. Assim me tornei um louco. E encontrei liberdade e segurança em minha loucura; a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aqueles que nos compreendem escravizam algo em nós. DEUS Nos tempos antigos, quando os primeiros tremores da fala chegaram a meus lábios, subi ao topo da montanha sagrada e falei com Deus, dizendo: “Senhor, eu sou vosso escravo. Vossa vontade oculta é minha lei e vos obedecerei para todo o sempre”. Deus, porém, não me deu resposta, e se foi como uma tempestade poderosa. E depois de mil anos subi ao topo da montanha sagrada e mais uma vez falei com Deus, dizendo: “Criador, eu sou vossa criação. Do barro me fizestes e a ninguém além de vós devo tudo o que é meu”. E Deus não me deu resposta, e se foi como o voo de mil asas velozes. E depois de mil anos subi ao topo da montanha sagrada e mais uma vez falei com Deus, dizendo: “Pai, eu sou vosso filho. Vossa piedade e vosso amor me deram à luz, e através do amor e da devoção hei de herdar vosso reino”. E Deus não me deu resposta, e se foi como a névoa que cobre como um véu as colinas distantes. E depois de mil anos subi ao topo da montanha sagrada e mais uma vez falei com Deus, dizendo: “Meu Deus, minha meta e minha plenitude; eu estava em vossas mãos ontem, e meu amanhã é vosso. Sou vossa raiz na terra e vós sois minha flor no céu, e juntos crescemos sob o sol”. Então Deus se inclinou sobre mim, e nos meus ouvidos sussurrou palavras cheias de doçura, e assim como o mar engolfa um riacho que corre em sua direção, Ele me recebeu. E quando desci para os vales e as planícies Deus também estava lá. MEU AMIGO Meu amigo, eu não sou o que aparento. A aparência é só uma vestimenta que uso – uma vestimenta tecida pela consideração e que protege a mim de teus questionamentos e a ti de minha negligência. O “eu” em mim, meu amigo, reside na morada do silêncio, e assim deve permanecer para todo o sempre, oculto, inacessível. Não quero que tu acredites no que digo nem que confies no que faço – pois minhas palavras nada são além de teus pensamentos em forma de som, e meus atos, tuas esperanças em forma de ação. AS SONÂMBULAS Na cidade em que nasci viviam uma mulher e sua filha, que andavam durante o sono. Certa noite, enquanto o silêncio envolvia o mundo, a mulher e sua filha, caminhando adormecidas, encontraram-se em seu jardim encoberto pelo sereno. E a mãe falou: “Até que enfim, minha inimiga! Você que destruiu minha juventude – que construiu sua vida sobre as ruínas da minha. Tenho vontade de matá-la!”. E a filha falou: “Oh, mulher odiosa, egoísta e velha! Que me impede de deixar meu lado mais livre vir à tona! Que gostaria que minha vida fosse um eco de sua vida opaca! Como eu queria que estivesse morta!”. Nesse momento o galo cantou, e ambas acordaram. A mãe perguntou gentilmente: “É você, minha cara?”. E a filha respondeu gentilmente: “Sim, querida”. OS DOIS EREMITAS Numa montanha solitária, viviam dois eremitas que cultuavam a Deus e amavam um ao outro. E os eremitas tinham uma tigela de barro, e essa era sua única posse. Certo dia um espírito maligno entrou no coração do eremita mais velho, e ele foi até o mais jovem e disse: “Já vivemos juntos por tempo demais. É hora de nos separarmos. Vamos dividir nossas posses”. O eremita mais jovem se entristeceu e falou: “Lamento, irmão, que queiras me deixar. Mas, se tu precisas ir, que assim seja”, e pegou a tigela de barro e lhe deu, dizendo: “Não temos como dividi-la, irmão, então que seja tua”. E o eremita mais velho falou: “Caridade eu não aceito. Não vou levar nada que não seja meu. É preciso dividi-la”. E o eremita mais jovem respondeu: “Se a tigela for quebrada, que uso terá para mim e para ti? Se for de teu agrado, podemos tirar a sorte”. Porém o eremita mais velho insistiu: “Só aceito o que é justo e meu por direito, e não posso aceitar que o acaso determine o que é justo e meu por direito. A tigela precisa ser dividida”. Como não tinha mais o que argumentar, o eremita mais jovem disse: “Se é esse mesmo teu desejo, e se tu não queres mesmo levá-la, pois quebremos a tigela”. Contudo o rosto do eremita mais velho só se tornou mais sombrio, e ele gritou: “Oh, maldito covarde, tu te recusas a lutar”. SOBRE DAR E RECEBER Em certa ocasião, houve um homem que era dono de uma quantidade infindável de agulhas. Um dia a mãe de Jesus foi até ele e disse: “Amigo, a vestimenta de meu filho está rasgada e precisa ser remendada para que ele possa ir ao templo. Tu podes me ceder uma de tuas agulhas?”. E ele não lhe deu uma agulha, e sim um discurso erudito sobre dar e receber, para que ela transmitisse ao filho antes de ir ao templo. A ROMÃ Certa vez, quando eu vivia no interior de uma romã, escutei uma semente dizer: “Um dia me tornarei árvore, e o vento cantará nos meus galhos, e o sol dançará nas minhas folhas, e serei forte e linda em todas as estações”. Em seguida outra semente se manifestou e disse: “Quando eu era jovem como você, também alimentava tais visões; mas, agora que sei avaliar e mensurar as coisas, vejo que minhas esperanças eram vãs”. E uma terceira semente também falou: “Não vejo nada em nós que seja promessa de um grande futuro”. E uma quarta disse: “Mas que piada nossa vida seria sem um futuro melhor!”. Uma quinta entrou na conversa: “Por que discutir o que seremos, se não sabemos nem o que somos?”. Mas uma sexta retrucou: “O que quer que sejamos, continuaremos a ser”. E uma sétima falou: “Tenho uma ideia bastante clara de como as coisas serão, mas não consigo colocar em palavras”. Então uma oitava tomou a palavra – e uma nona – e uma décima – e depois várias das demais – até estarmos todas falando, sem conseguir distinguir as vozes umas das outras. O COVEIRO Certa vez, quando estava enterrando um dos meus falecidos eus, o coveiro se aproximou e me falou: “De todos os que vêm aqui fazer seus enterros, você é o único de quem gosto”. Disse eu: “Isso me agrada muitíssimo, mas por que você gosta de mim?”. “Porque”, ele explicou, “os outros chegam chorando e vão embora chorando – você é o único que chega rindo e vai embora rindo.” O OLHO Disse o Olho certo dia: “Vejo além destes vales uma montanha coberta de névoa azulada. Não é uma beleza?”. A Orelha escutou, e depois de se concentrar atentamente por um tempo disse: “Mas onde está a montanha? Não estou ouvindo”. Então a Mão se manifestou e falou: “Estou tentando em vão senti-la e tocá-la, e não consigo encontrar nenhuma montanha”. E o Nariz disse: “Não há montanha alguma. Não estou sentindo o cheiro”. Então o Olho se voltou para outro lugar, e todos começaram a falar sobre sua estranha ilusão. E eles disseram: “Deve haver algum problema com o Olho”. QUANDO MINHA TRISTEZA NASCEU Quando minha Tristeza nasceu eu a cultivei com carinho, e a acompanhei com uma ternura amorosa. E minha Tristeza cresceu como todas as coisas vivas, forte e bonita e cheia de deleites incríveis. E nós nos amávamos, minha Tristeza e eu, e nós amávamos o mundo ao redor; pois a Tristeza tem um coração generoso, e o meu era generoso com a Tristeza. E quando conversávamos, minha Tristeza e eu, nossos dias eram alados e nossas noites eram adornadas de sonhos; pois a Tristeza tinha uma língua eloquente, e a minha era eloquente com a Tristeza. E quando cantávamos juntos, minha Tristeza e eu, nossos vizinhos se sentavam à janela e escutavam; pois nossas canções eram profundas como o mar, e nossas melodias eram repletas de estranhas lembranças. E quando caminhávamos juntos, minha Tristeza e eu, as pessoas nos observavam com olhares gentis e murmuravam palavras que transbordavam doçura. E havia aqueles que nos encaravam com inveja, pois a Tristeza era uma coisa nobre e eu demonstrava orgulho com a Tristeza. Mas minha Tristeza morreu, como todas as criaturas vivas, e sozinho fui deixado para refletir e ponderar. E agora quando falo minhas palavras pesam em meus ouvidos. E quando canto minhas canções os vizinhos não vêm escutar. E quando caminho pelas ruas ninguém me olha. Apenas no sono escuto vozes piedosas dizendo: “Vejam, lá está o homem cuja Tristeza morreu”. E QUANDO MINHA ALEGRIA NASCEU E quando minha Alegria nasceu, eu a tomei nos braços e subi ao telhado para gritar: “Venham, vizinhos, venham ver, pois neste dia a Alegria nasceu em mim. Venham contemplar esta criatura contente que gargalha sob o sol”. Porém nenhum de meus vizinhos veio ver minha Alegria, e minha perplexidade foi grande. E todos os dias por sete luas proclamei minha Alegria do telhado de casa – mas ninguém me deu ouvidos. E minha Alegria e eu continuamos sozinhos, sem sermos vistos nem visitados. Então minha Alegria empalideceu e se exauriu porque nenhum coração além do meu admirava sua graciosidade e nenhuma outra boca beijava seus lábios. E minha Alegria morreu de solidão. E agora só me recordo de minha Alegria morta ao pensar em minha Tristeza morta. Mas a lembrança é uma folha de outono que murmura por um tempo sob o vento e nunca mais é ouvida.
Estatísticas
Avaliações
4.1 / 330- 5 estrelas44%
- 4 estrelas26%
- 3 estrelas23%
- 2 estrelas5%
- 1 estrelas2%






