Álbum vegetal de memórias
Como entusiasta das formas poéticas curtas, foi uma alegria para mim conhecer os poemas da paulistana Katia Marchese, primeiro em “Mulheres de Hopper” e agora em “Herbário da Memória”. Admiradora confessa de Emily Dickinson, Marchese reúne, neste novo volume, dois amores da poeta norte-americana: o herbário e a poesia, que sob sua lavra traduziram-se num álbum de memórias e cenas em versos, escrito sob o signo das plantas. Acontecimentos são resgatados tendo os processos vegetais como metáforas. Mas, além das plantas verdadeiras, há as metafóricas, como a mulher, Rosa, que se defronta com um acidente, ou a rosa dos ventos com que se distrai uma pequena em espera. Katia Marchese é uma mestra da forma curta e, mesmo quando não se atém à rigidez de modelos fixos, segue a lógica dos haicais: cenas observadas em sua cotidianidade, olhar atento, surpresa, percepção inusitada — flores colhidas nas delicadezas que pontuam os dias. Quem se permite ver é presenteado. E não é só semanticamente que uma lógica vegetal se impõe. Esteticamente, os versos de “Herbário da Memória” buscam a harmonia das folhas, a singeleza da pétala, a elegância do caule, a gentileza do perfume, o segredo da seiva, ainda que a cebola faça arder os olhos e a insânia do capital faça gemer a serra. “As cebolas despencam, como chuva ácida. As cenas nunca são bem vistas nos olhos de quem chora.” Pois este Herbário não esquece o real, aquele que dói. Mas usa da beleza para nos atrair o olhar e ensinar: mais que gostar, bonito de verdade é ver. *publicado originalmente no Instagram: @alineaimee

