As mais contrastantes experiências humanas são narradas nas dezoito histórias deste volume com a segurança e a elegância habituais de Lygia Fagundes Telles. Numa prosa calorosa e envolvente, desfilam os dramas e comédias de divas da ´´opera, motoristas de caminhão, jovens músicos, velhos aposentados, amantes em descompasso, casamentos agonizantes. Não por acaso, Antes do Baile Verde figura entre as obras mais consagradas da autora. Por trás da enorme variedade de situações e de enfoques, do trágico ao fantástico, da parábola moral ao conto de terror, o leitor encontra aqui a inimitável habilidade da autora em observar o destino humano no que ele tem de mais frágil, secreto e surpreendente. "Essas obras-primas, de tão fremente inquietação íntima e que exalam um desespero tão profundo, ganham a clássica serenidade das formas de arte definitivas." PAULO RÓNAI
Antes do Baile Verde -
Lygia Fagundes Telles
A indispensável sombra das intenções
Como fazer jus, em um espaço tão pequeno, à grandeza da literatura de Lygia Fagundes Telles? Lygia Fagundes Telles. Lygia. Fagundes. Telles. Esse nome precisa ser repetido inúmeras vezes para que as pessoas compreendam o peso que ele carrega. Compreendam que a ficção não é distração. Compreendam que ficção não é (apenas) entretenimento. Compreendam que ficção não é desperdício de tempo. Lançado em 1970, "Antes do baile verde" é, ao lado do romance "As meninas", a principal obra de Lygia. Este volume, hoje composto por 18 contos a pedido da autora, é monumental. Não há outra maneira de classificá-lo. Aliás, faltam palavras que dimensionem o tamanho do impacto das narrativas breves presentes neste livro. Lygia aborda, com lucidez espantosa, as contradições da condição humana. Amor, inveja, ciúme, horror, adultério, violência. Cada narrativa breve de "Antes do baile verde" tem a força de despertar em seus leitores as mais variadas sensações. Os sentimentos são expressos nas pequenas coisas. Eles podem estar presentes nos objetos que aparecem gradativamente para compor a narrativa em "Os objetos"; na revelação que desperta os sentimentos mais sórdidos de um irmão em "Verde lagarto amarelo"; na descoberta de um passado escondido (e teneboroso) em "Helga"; na reflexão sobre a natureza do sexo em um momento congelado no tempo de "O moço do saxofone"; em uma decisão sobre o pai moribundo antes de um bailinho de carnaval, em "Antes do baile verde"; no fantástico assombroso e absurdo de um homem sugado para a sua obsessão em "A caçada"; no tratamento indecente de um servo que pode resultar em consequências inesperadas em "Meia-noite em ponto em Xangai"; na descoberta da loucura em "A janela"; na dúvida incessante de um assassinato em "O jardim selvagem"; no diálogo intenso e sombrio numa noite de Natal em "Natal na Barca"; no desfecho inesperado de um encontro entre antigos namorados em "Venha ver o pôr-do-sol"; no jantar com gradações de humor e confissões entre amantes em "A ceia"; na simples e terrível descoberta do adultério e a consequente perda da inocência em "O menino". Não importa: a dama da literatura brasileira dá aos detalhes o grande protagonismo de suas histórias. E olha que aqui eu só coloquei os meus destaques... A autora busca, portanto, compartilhar a responsabilidade da imaginação com os leitores, tornando-os 𤬠#$%!& mplices de sua genialidade. É através da indispensável sombra das intenções, nessa zona nebulosa que nega respostas simples e prontas, que Lygia ganha seus leitores. É na cinzenta relação entre o real e o irreal que a literatura perdura. E que a leitura de "Antes do baile verde" torna-se incontornável.
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