"Corpo", do poeta maior, é um livro crepuscular. A 1ª edição é de 1982.
O grande poeta é o que marca o seu tempo, sendo por ele marcado: eis a primeira lição, e não a menos importante, que nos propõe a poesia drummondiana.
Neste livro, sobrepaira um dos poemas definitivos do nosso poeta, escrito em homenagem à sua colega de ofício bem mais jovem, a poeta Ana Cristina César, que em 1983, deu cabo da própria vida, interrompendo, assim, uma das mais promissoras trajetórias da nossa poesia.
O original do poema foi recolhido pelo poeta e curador da obra de Ana Cristina, o poeta Armando Freitas Filho, que o publicou nos livros póstumos da escritora carioca.
O poemeto, composto por nove versos, é imenso e contém uma valiosa lição, ainda que dolorosa, que nos legou Drummond.
Melhor que gastar verbo é transcrever logo:
"Ausência
Com o pensamento em Ana Cristina César
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim."
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (1902 - 1987)