"Na frente, o filho de Jápeto sustém o amplo céu, parado, com a cabeça e braços incansáveis, imóvel, onde Noite e Dia passam perto e falam entre si ao cruzarem o grande umbral de bronze: uma entra e a outra pela porta vai, e nunca a ambas a casa dentro encerra, mas sempre uma delas deixa a casa e à terra dirige-se, e a outra na casa fica e aguarda a própria hora de ir até aquela chegar. Uma, para os terrestres, tem luz muito-vê, a outra, nas mãos, Sono, irmão de Morte, tem, a ruinosa Noite, escondida em nuvem embaciada."
Teogonia & Trabalhos e dias -
Hesíodo
"Da mesma origem criaram-se os deuses e os homens"
Obra fundamental dentro do universo mitológico, a Teogonia de Hesíodo é um poema incontornável para os apreciadores da mitologia grega. Como sugestivamente o próprio título indica, a narrativa tem a proposta de contar a origem dos deuses. Além disso, a Teogonia é uma das fontes primárias que abordam o processo originário cosmogônico a partir da concepção grega. O livro consome boa parte de sua extensão em tratar da genealogia dos deuses, seus relacionamentos e suas prolíficas proles. Nesses momentos, Hesíodo elenca quem casou com quem e os filhos e filhas descendentes deste e daquele(a) deus(a). Nesse sentido, essas partes lembram muito trechos de alguns livros bíblicos (como os livros de Crônicas). As figuras mencionadas por Hesíodo são incalculáveis; só a prole de Nereu soma 50 filhas, todas atenciosamente nomeadas pelo autor. Por entre as hostes de nomes há alguns relatos de mitos, claro, mas eles evidentemente não constituem a prioridade do poema. De fato, a Teogonia não é o livro adequado para quem busca relatos de histórias mitológicas. Metamorfoses de Ovídio, pelo que conheço, é o mais indicado para os interessados(as) nos mitos propriamente. Entretanto, como disse, algumas histórias mitológicas aparecem, bem como menções de figuras conhecidas como a Hidra, Cérbero, Medusa, Pégaso, Esfinge... O mito que mais se destacou para mim foi o de Pandora, que pela primeira vez li em fonte primária. Nunca antes, confesso, havia reparado nos paralelos possíveis entre esse mito grego e o mito bíblico relativo a Eva que, embora não numerosos, são suficientes para se fazer notar. Veja o seguinte trecho: "Antes, essa raça de humanos vivia sobre a terra, livre dos males, dos árduos trabalhos e das terríveis doenças que levam o homem à morte - pois na miséria os homens envelhecem rapidamente. Mas a mulher, ao erguer a tampa do grande jarro, espalhou com suas mãos todos os males e trouxe para os homens tristes pesares." Ou seja, a história de Pandora em alguns pontos é semelhante a de Eva, ou Eva a de Pandora. Segundo os respectivos mitos, antes delas o mundo era um paraíso, sem doenças e necessidade de trabalho para subsistência, pois a terra fornecia alimentos em abundância. Tanto Eva quanto Pandora tornam o mundo pior após desobediência: Pandora ao abrir a caixa, e Eva ao comer o fruto. Além disso, ambas são as primeiras mulheres em suas cosmogonias particulares. Aliás, o trecho destacado acima do parágrafo anterior é do segundo poema deste volume, intitulado na tradução de Trabalhos e dias. Neste poema Hesíodo principalmente dirige ao seu irmão Perses uma série de conselhos no sentido da valorização do trabalho como meio mais seguro e correto para garantir as condições de subsistência. Os aconselhamentos vão desde aqueles de teor moral até aqueles mais práticos, como indicar as épocas do ano mais propícias para cada atividade pretendida. É ainda nesse texto que aparecem as consagradas Eras (de Ouro, Prata, Bronze, Heróis e Ferro). É bonito e significativo entender que o canto (no nosso contexto, o poema) é nascido da Memória, tanto em sentido mitológico, uma vez que as musas que personificam essa atividade são filhas de Mnemósina, quanto em sentido lógico do exercício do aedo, pois ao cantar ele evoca, rememora e transmite as histórias antigas. Assim, o aedo é como o curador e emissor dessas memórias através da oralidade, em um período em que as comunidades ainda não haviam adotado o alfabeto e por conseguinte a forma escrita de preservação e disseminação dos conteúdos referidos. Fica a advertência de que essa edição traz o texto em formato de prosa, fato que não me incomodou, ao contrário do que eu imaginava. As notas de rodapé são muito úteis, ora para explicar escolhas de tradução, ora para advertir pontos de divergência entre versões específicas narradas por Hesíodo em contraste com outras versões. Não foi uma leitura tão legal quanto Homero, Eneida, Metamorfoses, mas valeu a pena, sem dúvida.
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