Prima Secundæ Partis (Primeira Parte da Segunda Parte) - Quaestiones 49-114 - Os hábitos e as virtudes - Os dons do Espírito Santo - Os vícios e os pecados - A pedagogia divina pela lei - A lei antiga e a lei nova - A graça
Suma Teológica (Vol. IV) - I-II Parte – Questões 49-114 -
Santo Tomás de Aquino
A Suma Teológica é uma obra tão ampla e complexa- e distante do estudante universitário brasileiro-, que ao escrever sobre ela, me vejo com uma pequena missão de despertar os leitores desse site uma abertura de espírito a uma das maiores criações da humanidade. A Suma já foi comparada a uma catedral gótica e foi a base de Dante Alighieri para compor sua Comédia. Esse volume IV, por exemplo, na parte que trata dos vícios e das virtudes, foi o que inspirou Dante para situar os condenados do Inferno e do Purgatório em suas respectivas penas. Essa pequena abertura foi escrita para permitir uma descoberta por parte de quem lê esse texto sobre a importância de São Tomás e de sua moral para a ética do Ocidente. A definição dos valores morais de São Tomás é tirada da Bíblia e da Ética a Nicômaco.Obviamente que quando você ler o texto vai perceber que o Aquinate não faz a moral depender do Eu subjetivo. Há toda uma série de citações dos santos da igreja, especialmente de Santo Agostinho, que ele usa para demonstrar os valores que a igreja católica adotou. Passemos agora a ver como São Tomás entende a virtude. Para ele, a “virtude é um hábito que designa certa perfeição da potência”. Essa definição vem de Aristóteles, em seu livro Do Céu, em que o filósofo grego designa a virtude como “o último grau da potência”. A virtude sendo uma potência que se presta indeterminadamente a muitas coisas, é considerada uma perfeição em relação ao seu ato. Na Física, Aristóteles define a virtude como ” a disposição do que é perfeito para o que é ótimo.” Dessa maneira, São Tomás afirma que o ótimo para qual o homem deve direcionar sua virtude é o próprio Deus, com isso permitindo que sua alma se assemelhe com Ele. O hilemorfismo da filosofia Tomista define o homem como uma união de corpo e alma. A partir disso, São Tomás diz que a virtude é uma potência exclusiva da alma e não do corpo. Mas a virtude só pertence a hábitos apetitivos ou também pertence ao intelecto? Segue o trecho em que São Tomás esclarece essa questão: “Portanto, como os hábitos intelectuais especulativos não aperfeiçoam a parte apetitiva nem lhe dizem respeito, de algum modo, senão só à parte intelectual, é possível chamá-los de virtudes enquanto acionam a faculdade dessa boa ação, que é a consideração da verdade, pois essa é a boa obra do intelecto. Não são, porém, virtudes no segundo sentido, ou seja, enquanto proporcionam o bom uso da potência ou de um hábito. Na verdade, não é por se ter um hábito de uma ciência especulativa que se tende a usá-la, mas se torna apto a contemplar a verdade nas coisas das quais têm conhecimento. Que se use do conhecimento adquirido, isso se dá por moção da vontade. Por isso a virtude que aperfeiçoa a vontade, como a caridade ou justiça, também leva a usar bem desses hábitos especulativos. Assim, pode haver mérito nas ações desses hábitos, se forem feitas com caridade. Daí aquela palavra de São Gregório Magno: “a vida contemplativa tem mais méritos do que a ativa.” Para uma reflexão sobre a virtude intelectual segundo a filosofia Tomista, pode-se tomar como exemplo o que você irá fazer com o conhecimento adquirido quando lê uma verdadeira filosofia, como é o caso da de Aristóteles e de São Tomás. Conhecendo o bem e a verdade, você deverá passar a praticar a virtude como um ato de caridade, pois sem ela seu ato não passará de filantropia. Praticando o bem, seu objetivo é fazer com que sua alma se aproxime ao máximo da bondade divina. Cultivando a virtude do intelecto, você terá como meta contemplar a verdade de Deus e utilizar bem do conhecimento que possui. Com o mesmo espírito de caridade, aquele que possui o conhecimento da verdade deve utilizar-se da caridade e comunicar o que sabe às pessoas de seu círculo de amizade, ou quem mais estiver ao seu alcance. A vida contemplativa é a mais aprazível aos deuses, segundo Aristóteles. No cristianismo, a vida contemplativa significa ter a Deus como fim e sempre agir com a caridade, o que é algo que os gregos da Antiguidade desconheciam. Nem toda a virtude é moral, mas só a que está na faculdade apetitiva, diz São Tomás. Da definição aristotélica de que “as virtudes se definem por esta diferença: chamamos umas de intelectuais e outras de morais”, São Tomás e sua doutrina da união do corpo e da alma nos recordam de que a alma governa o corpo, por isso, afirma o Aquinate, ” houve quem afirmasse que todos os princípios ativos existentes no homem se comportam dessa forma com a razão. Mas se fosse assim, bastaria, para agirmos bem, que a razão fosse perfeita e, como a virtude é um hábito que nos aperfeiçoa para agirmos corretamente, ela estaria apenas na razão, e, portanto, toda a virtude seria intelectual, como pensava Sócrates.” Segundo esse filósofo grego o homem dotado de conhecimento não podia pecar, e os que pecam o fazem por ignorância. Mas tudo isso é falso, nos diz São Tomás. “A parte apetitiva obedece à razão, mas com certa resistência”. Essa afirmação é tirada da Ética a Nicômaco, pois Aristóteles bem observou o comportamento das crianças e dos adolescentes. Nesse grupo também entram os apaixonados e da maior parte dos homens que, segundo Aristóteles, “não podendo alcançar as alegrias do espírito“, mergulham nos prazeres sensíveis. O mesmo Aristóteles afirma que a “razão rege a potência apetitiva com o poder político”, tal qual se governam pessoas livres que têm certos direitos de oposição, segundo São Tomás. Sócrates só está certo “contanto que o conhecimento se estenda ao uso da razão no caso de uma opção em particular”. Portanto, segue Tomás, o apetite se distingue da razão, assim como a virtude moral de distingue da intelectual. Para terminar, existe um conceito de virtude que os antigos desconheciam, mas que a filosofia cristã desenvolveu. É o da virtude moral infusa. Deus além das virtudes teologais, também infunde virtudes morais e intelectuais que correspondam a essas virtudes teologais. Albert Plê, um dos comentaristas da Suma, afirma que Deus não apenas infunde as virtudes teologais, mas também as intelectuais e morais que, “sem nada perder de seus objetos específicos, são super-elevadas, por efeito de uma finalidade supra-motivante, que é o próprio Deus imediatamente” (p.185). Seria a virtude adquirida pela repetição da mesma espécie que a virtude infusa? ( artigo 4, questão 63) São Tomás nos dá um exemplo. Pela regra humana, a alimentação não deve ser prejudicial nem à saúde do corpo nem ao ato da razão. Mas pela regra da lei divina, diz São Tomás, exige-se do homem que castigue seu corpo e o mantenha submisso. Ou seja, a temperança infusa e a temperança adquirida são diferentes. Aristóteles diz na sua Política que a virtude dos cidadãos se ajustam às diferentes formas de governo. Dessa maneira, as virtudes infusas fazem do homem cives sanctorum et domestici Dei, ou seja, concidadãos dos santos e da família de Deus, definição essa de São Tomás de Aquino.
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