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    Tese sobre uma domesticação -

    Camila Sosa Villada

    Companhia das Letras
    2024
    224 páginas
    7h 28m
    ISBN-13: 9788535937183
    Português Brasileiro
    4.1
    478 avaliações
    Leram617Lendo25Querem813Relendo0Abandonos7Resenhas82
    Favoritos40Desejados813Avaliaram478

    A estreia da autora de Parque das irmãs magníficas na Companhia das Letras. Um romance sobre amor, desejo, corpos rebeldes e novas configurações familiares. Uma atriz trans adota um menino de seis anos com seu marido, um advogado gay. O garoto traz consigo uma história trágica: soropositivo, não conheceu seu pai biológico, e sua mãe se suicidou quando descobriu que o contagiou com o vírus HIV. A partir deste enredo, a prosa inclassificável de Camila Sosa Villada nos conduz por uma espécie de sociologia da família, uma indagação comovente sobre os papéis que a compõem, sobretudo no que diz respeito às possibilidades do amor. Até que ponto é possível domesticar um corpo? Como conviver com as feridas do outro? O que fazer quando se cai nas garras das convenções, do socialmente respeitável? A literatura de Camila Sosa Villada ― “a coisa mais importante que li sobre sexualidade desde Jean Genet”, anotou o autor francês Édouard Louis ― desafia de modo cabal nossas emoções. Nesta história de pactos invisíveis, de uma rebeldia profunda e convulsiva, de paixões arrasadoras, ninguém sai como entrou. “Há na voz de Camila Sosa Villada uma espécie de pano ou lenço de seda a tremular por paisagens assombrosas, e nós somos o bicho, somos o olho e estamos na voz do que ela narrar. A voz preciosa. Rara. A mesma que silencia e logo depois acende tudo ao redor.” ― Aline Bei “Um livro perturbador. A escrita de Sosa Villada chega a esse lugar de inconformismo onde o corpo entregue à palavra deixa sua marca.” ― La Nación “A voz que narra esta história sabe que é preciso romper as correntes de toda escravidão e matar deuses para que alguma libertação se cumpra. A voz de Camila, cada vez mais, se estabelece como uma das mais hábeis e sofisticadas da nossa narrativa contemporânea.” ― Socorro Acioli

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    Lucas Rabêlo01/08/2024Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Uma travesti incapaz de amar (a voz humana)

    Camila Sosa Villada já instituiu forma às mais diversas personalidades num (ainda) curto percurso literário. A escritora argentina subverte as ações de cada criação sua na convulsão provocativa, geniosa e romântica que perpassa a verve humana. Nada é tão absurdo que não possa ser mais escrachado em histórias que beiram o surrealismo e o estoicismo. E claro, à exemplaridade da escrita que foge de uma classificação, Camila não é categórica ou apenas identitária, é, antes de tudo, testemunha da sociologia dos corpos e das almas. Transgressora, Camila atinge um grau elevado do esteio psicanalítico nas páginas que circundam a Atriz, protagonista transexual desta epopeia complexa, dançarina da particularidade utópica de um status muito bem-sucedido, que fez a autora destoá-la da enxurrada de personificações travestis estilizadas só à sexualidade. Pragmática, porém, a criadora não acredita que chegaremos a tanto, uma travesti no topo do mundo, ora essa, mas a permite ser, e ter, a exuberância que deseja. Tudo se dá assim, a Atriz casa-se com o Marido, um advogado gay; em miúdos, um homem cis. Na balança dos gêneros é que vem a brincadeira atordoante: corpos performáticos quase incompatíveis. O momento exato para Camila mexer os pauzinhos, embasbacar o leitor e se chafurdar contra o politicamente correto irracional àqueles contraventores da dita comunidade que haveria de ser progressista, os ?trans-viados?. Epítomes dela e dele, respectivamente, aliás, sem nomes próprios. A obra setoriza relações imperativas, de significações sociais; o Marido é o pacote da virilidade almejada na cultura estética rarefeita, contrapondo-se a ela, que é execrada por sua altivez, como uma ferramenta da mulher trans; e muito se espera dela, que rememora os assombros da motivação de sua rebeldia dissidente à normatividade. Em cartaz há dois anos com seu monólogo de Jean Cocteau, ?A voz humana?, intervenção pessoal perfeita para externar a individualidade ceifada, aos gritos e berros de uma amante à espera de respostas do amado (talvez do restante da sua existência), a Atriz imprime a sedução inevitável ao alheio, uma travesti é o hiato que separa amor e ódio, política e sexo, vida e morte. Ela é todos, e todos querem ela, para o bem ou o mal. Indagar-se quanto ao próprio casamento, à maternidade, ao tesão apartado das núpcias, à militância enfadonha, é designá-la forjada. É vê-la ingrata ao que possui. O que ninguém contou até agora, é que ser domesticada não é mais um exercício aspirado. O talhe travesti é humano, e, portanto, também se contradiz. No dia que conheci Camila, ela me tirou para dançar numa pista efervescente e completamente devota a ela. Flertamos com a mágica dos encontros enamorados dos ídolos, eu por ela, e ela pelas referências intelectuais que a levaram até ali (são muitas, e maravilhosas). Esta madonna, brilhante em seus trajes, subversiva ao senso comum, como a Atriz, autografou-me os livros, cedeu-me pose para uma foto conjunta e abraçou-me com todo o carinho de alguém, de uma pessoa qualquer, que ama, sofre, e, na radicalização, encontra seu poder principal, a força.

    48 curtidas

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    Camila Sosa Villada

    Camila Sosa Villada é uma transgênero, escritora e atriz argentina de teatro, cinema e televisão. Formou-se em Comunicação Social e Teatro na Universidade Nacional de Córdoba. Em 2009, como atriz, estreou seu primeiro espetáculo, Carnes tolendas, retrato escénico de un travesti. Em meio a diversos trabalhos nos palcos, no cinema e na televisão, passou a dedicar-se à escrita.É autora do livro de poemas La novia de Sandro, do ensaio El viaje inútil e dos romances Tesis sobre una domesticación e O parque das irmãs magníficas. Este já foi traduzido para vários idiomas, sucesso de público e aclamado pela crítica, e agora é publicado no Brasil pelo selo Tusquets da Planeta. Em 2020, O parque das irmãs magníficas recebeu o prestigioso prêmio Sor Juana Inés de la Cruz, outorgado pela Feria Internacional del Libro de Guadalajara (FIL).

    12 Livros
    149 Seguidores

    Camila Sosa Villada