Uma mulher -

    Annie Ernaux

    Fósforo
    2024
    64 páginas
    2h 8m
    ISBN-13: 9786560000124
    Português Brasileiro

    Cinco anos depois de recompor a vida e a trajetória do pai em O lugar, Annie Ernaux retorna à autossociobiografia, gênero que inaugurou e que a consagrou, para narrar as memórias que guarda de sua mãe, escritas nos meses seguintes à morte dela. Com a tarefa de articular uma narrativa “entre o familiar e o social, o mito e a história”, Ernaux parte da mesma “linguagem neutra” de outros livros para escrever sobre a própria mãe, mas também sobre a vida de uma mulher. No entanto, a dor e a fragilidade do luto alteram essa equação de forma sutil, porém fundamental: em contato com a perda materna, o estilo seco assume um contorno visceral que vai direto ao coração das lembranças. À flor da pele, ela atenta para as muitas facetas da dor, desde as mais ínfimas. “Alguns pensamentos deixam um buraco em mim: pela primeira vez, ela não vai ver a primavera.” Apesar disso, reconhece a dimensão social de seu luto: “perdi o último vínculo com o mundo do qual vim”. Nascida no início do século 20, sua mãe foi operária desde os doze anos. Tinha orgulho do ofício e de buscar a independência. “Ir longe”, assim Ernaux define o princípio que regeu a vida dessa mulher. Depois de se casar, abriu com o marido o café-mercearia onde trabalhou até a terceira idade. Leitora voraz e aberta para o mundo, estimulava os estudos da filha na tentativa de lhe prover o que nunca tivera. Quando, já viúva, vai viver com Ernaux e os netos, mãe e filha experimentam nas miudezas do cotidiano a distância que a ascensão social da filha singrou entre as duas. Com precisão cirúrgica, a autora recupera os detalhes dos gestos maternos, as expressões, a inquietude e a vivacidade que a mãe manteve até o fim da vida, numa casa de repouso, já acometida pelo Alzheimer. Sóbrio e comovente, este livro é peça central no quebra-cabeças do projeto da autora de escrever a vida. Nele é possível acompanhar não só a trajetória de uma mulher da classe trabalhadora, mas os sentimentos viscerais de sua filha: amor, ódio, admiração, ternura, culpa e um vínculo inabalável.

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    Kakau01/04/2025Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Um Retrato do Luto: “Não vou mais ouvir sua voz. É ela, mas também suas palavras, suas mãos, seus gestos, a maneira como ria e andava, que unem a mulher que eu sou à criança que um dia eu fui. Perdi o último vínculo com o mundo do qual eu vim.”

    “Não sabíamos se daria para vê-la uma última vez antes de fecharem o caixão. O funcionário da agência funerária que nos atendera na loja saiu de uma sala ao lado e, gentilmente, nos convidou a acompanhá-lo. Minha mãe estava no caixão, com a cabeça para trás, as mãos unidas segurando o crucifixo. Haviam tirado o pano que a enrolava e vestido a camisola de sianinha. Um lençol de cetim a cobria até o peito. Era uma grande sala vazia, de concreto. Não sei por onde entrava uma leve luz do dia.” “Uma Mulher”, de Annie Ernaux, é um relato autobiográfico que transcende o âmbito pessoal, tornando-se uma profunda e sensível reflexão sobre perda, memória e identidade. Publicado em 1987, o livro não se limita a narrar a morte da mãe da autora, mas se aprofunda, com uma precisão quase cirúrgica, na complexidade do vínculo entre mãe e filha — uma relação intricada, tecida por amor, admiração e as inevitáveis fricções do afeto, que tornam o laço entre ambas único e complexo. Com uma prosa despojada de artifícios, Ernaux transforma a dor em literatura, convertendo a ausência em presença e a memória em um exercício contínuo de ressignificação. Suas palavras, diretas e implacáveis, reverberam profundamente em qualquer leitor que já tenha enfrentado o luto, evocando a universalidade de uma experiência que, apesar de profundamente íntima, é compartilhada por todos que conhecem a perda. Mais do que uma simples despedida, “Uma Mulher” é uma tentativa de capturar, pela escrita, aquilo que um dia foi vida — um testemunho que resiste ao tempo e, ao ser lido, reaviva a essência do que parecia irremediavelmente perdido, mantendo viva a memória de algo que, embora ausente, continua presente nas palavras. Minha primeira experiência com a autora Annie Ernaux, ao ler “Uma Mulher”, foi profundamente tocante. A escrita de Ernaux penetrou em mim de maneira visceral, como se cada palavra fosse uma extensão da dor e do luto que ela carregou. Sua narrativa é simples, intimista, direta, mas o que mais me encantou foi a forma quase crua com que ela transmite suas emoções, como se nos entregasse um pedaço de seu diário pessoal, escrito sob o peso de uma tristeza imensa. A leitura não se apresenta como uma obra literária planejada para grandes reflexões; ao contrário, é o desabafo sincero de alguém que busca consolo nas palavras, enquanto tenta, com esforço, lidar com uma perda irreparável. Cada palavra, cada frase, parece carregar um peso profundo, como se fossem escritas entre lágrimas, em meio a um sofrimento esmagador. Ernaux escreve como quem, desesperada, se agarra às palavras para não sucumbir ao vazio da ausência, como se elas fossem uma resistência constante, um esforço para manter viva uma presença que, fisicamente, já se foi. Há algo quase sagrado no ato de escrever. Como se, ao transmutar sua dor em palavras, Ernaux desafiasse o esquecimento, buscando eternizar a memória de sua mãe de um modo que o tempo não pudesse apagar. Mesmo que o papel se embebesse em lágrimas, mesmo que os olhos se perdessem em um mar de tristeza e a visão se obscurecesse pela dor, o ato de escrever se torna um último e profundo gesto de amor. Um tributo silencioso à mulher que ela amava com uma intensidade incomensurável, alguém que, embora ausente fisicamente, permanece viva nas memórias, nas lembranças, e, principalmente, nas palavras que preenchem aquelas páginas. “Uma Mulher” não é apenas um relato de luto; é uma expressão pura de amor, uma homenagem silenciosa à presença imortal de sua querida mãe. Uma presença que, embora ausente do mundo, permanece vívida e intensa nas palavras que Ernaux, através da dor, conseguiu imortalizar. Mesmo que o papel se encharcasse, mesmo que os olhos ardessem e a tristeza turvasse a visão, escrever ainda era o último e mais profundo gesto de amor. A narrativa se desenrola a partir da morte da mãe de Annie Ernaux, funcionando como um mergulho profundo no luto e na tentativa de compreender esse vazio irreparável que a perda deixou. A autora escreve o livro pouco tempo após o falecimento, e cada página carrega o peso da dor recente, da ausência palpável e das memórias que insistem em retornar, como ecos de um tempo que se foi. Ernaux não se limita a reviver momentos da infância e da juventude ao lado da mãe, mas também examina, com uma honestidade implacável, os contrastes entre suas trajetórias de vida. Enquanto a mãe lutou arduamente para ascender socialmente, proporcionando à filha um futuro diferente do seu, Annie vivenciou a transição entre o mundo operário e o universo intelectual, algo que, por vezes, criou uma distância emocional entre elas. A escrita da autora não segue uma estrutura linear, mas sim um fluxo de recordações e reflexões que oscilam entre o passado e o presente, revelando como a perda de um ente querido não se dá em um único instante, mas reverbera de maneira contínua e transformadora na vida daqueles que permanecem. O tempo, na obra, não é uma linha reta, mas um tecido intrincado de lembranças entrelaçadas, onde momentos da infância, da adolescência e da vida adulta se confundem, criando um retrato intenso, profundo e multifacetado dessa mulher que, mesmo ausente, segue viva e pulsante através das palavras, revelando a complexidade e a transcendência da memória humana. A protagonista da obra é uma mulher nascida no início do século XX, filha de camponeses normandos, que, com muita determinação, ascende socialmente ao se tornar proprietária de um pequeno comércio. Sua vida é moldada pelo esforço incessante, pela busca constante de superação e, acima de tudo, por um amor maternal que beira a obsessão. Ernaux descreve sua mãe como uma figura contraditória: ao mesmo tempo carinhosa e autoritária, trabalhadora incansável e controladora. Seu profundo desejo de garantir à filha um futuro melhor a impulsiona, mas também cria tensões inevitáveis e conflitos silenciosos entre elas. O livro destaca a maneira como a ascensão social da mãe molda não apenas seu comportamento, mas também sua visão de mundo, sua mentalidade. Ela valoriza profundamente a educação da filha, com a esperança de que Annie tenha um destino diferente do seu, menos marcado pela exaustão diária e pela luta implacável pela sobrevivência. Contudo, essa ambição materna é acompanhada de uma grande dificuldade de comunicação, criando uma barreira quase invisível, mas palpável, entre gerações e classes sociais, que se torna ainda mais evidente à medida que Annie cresce e se distancia do mundo simples e duro de sua infância. O coração do livro repousa na complexa e muitas vezes conflituosa dinâmica entre mãe e filha. A relação entre elas é permeada por amor profundo, mas também por um conflito constante, e, em última instância, por um inescapável sentimento de perda. Ernaux retrata com rara sinceridade as dificuldades desse vínculo, sem adornos ou idealizações: a pressão constante da mãe, a impaciência crescente da filha, os momentos de ternura que se alternam com as rusgas cotidianas. A escritora não busca nem idealizar nem demonizar essa figura materna, mas, ao contrário, tenta compreendê-la em toda a sua complexidade, suas fragilidades e suas forças. É curioso como, apesar de sempre tentar evitar livros que tratam do luto e da perda de entes queridos — especialmente a morte das mães —, acabo, inevitavelmente, exatamente onde não queria estar: imersa nessas histórias. Parece uma ironia cruel do destino, como se, por mais que tentemos fugir de certas dores, elas sempre nos encontrassem no fim do caminho, como sombras que nos seguem, silenciosas, enquanto tentamos ignorá-las. É inquietante pensar que pessoas que um dia amamos, que marcaram nossas vidas de formas irreversíveis, um dia não estarão mais aqui, ou que algumas já se foram sem que pudéssemos sequer nos despedir. Que, inevitavelmente, todos nós, em algum momento, nos deitaremos sob a terra, entregues à decomposição, ausentes do mundo, ausentes em alma, em palavras, em som. Seremos apenas um nome esquecido pelo tempo, pelas gerações, e, um dia, será como se nunca tivéssemos existido. Nossos gestos, nossas risadas, nossas tristezas, tudo se perderá na bruma do passado. Não faremos mais as coisas que gostamos, ou mesmo aquelas que odiávamos, aquelas pequenas ações que davam sabor ao dia a dia. Não haverá mais espaço para reclamações, para felicidades, para as coisas boas que a vida ainda tem a oferecer. Aqueles bens materiais, cheios de significados e memórias, que um dia tiveram tanto valor sentimental, que guardamos com tanto zelo, que tocaram nossas mãos e contaram nossas histórias, estarão esquecidos em algum canto do mundo, sem que possamos jamais saber seu destino, desaparecendo no fluxo implacável do tempo. Mas a morte é um acontecimento que, por mais difícil que seja aceitar, se tornou naturalizado em nossa existência. Afinal, é inevitável que a morte aconteça. Ela virá, assim como veio para todos aqueles que já partiram deste mundo cheio de problemas. E, no fim, a pessoa ao seu lado, na foto, sua pessoa favorita, também partirá, assim como você, assim como um animalzinho de estimação. Todos nós, de alguma maneira, enfrentaremos o mesmo destino. A única diferença é o tempo, que, silencioso, calado, nos conduz aos poucos até lá. Neste trecho do livro: “Ela nunca mais estará em lugar nenhum do mundo”, senti uma dor aguda, como uma lâmina atravessando o peito. Palavras simples, mas devastadoras, que cortam a alma. Annie Ernaux vivenciou cada fase do luto com uma precisão cruel, desnudando o sofrimento sem qualquer suavização. Chorava todos os dias, em qualquer lugar, incapaz de escapar da ausência sufocante de sua mãe, que parecia a perseguir a cada momento, lembrando-lhe do falecimento a cada suspiro. Ouviu até mesmo comentários cruéis e insensíveis sobre a morte de sua mãe, palavras que intensificaram ainda mais sua dor. Limitava-se ao essencial para sobreviver, reduzida ao mínimo necessário, enquanto o peso da perda a esmagava. E, no meio de tudo isso, havia a negação — momentos profundos de resistência à aceitação da morte, como se a simples aceitação fosse um segundo golpe, tão dilacerante quanto a perda em si. Seu estado mental estava tão fragilizado que até as coisas mais simples se tornaram insuportáveis. A leitura, que costumava ser uma fuga, agora se tornava um ato quase impossível. O olhar corria pelas linhas das páginas, mas as palavras se desfaziam, e sua mente, incansável em sua dor, era incapaz de se fixar em qualquer coisa que não fosse a ausência. Pelo que compreendi, sua mãe não era apenas um ente querido; ela era o alicerce de sua existência, o centro de seu mundo, seu porto seguro. O amor de sua vida inteira. E este livro, mais do que uma simples obra literária, é como uma carta — uma carta escrita com a dor mais profunda, endereçada a uma mulher que, ao longo de sua vida, trabalhou incansavelmente para garantir um futuro melhor para suas filhas, um futuro de possibilidades que ela mesma nunca teve. Para aqueles que buscam uma leitura que vá além da superfície, que encare a memória, a perda e a identidade com uma honestidade brutal, “Uma Mulher” é uma obra imprescindível. Não se trata apenas de um relato de luto, mas de uma tentativa visceral de preservar viva a memória de alguém que moldou a vida de Ernaux de maneira profunda e indelével. Cada palavra, cada página, tocou-me de forma única, e sou grata por ter sido imediatamente cativada pela escrita da autora — algo que considero essencial ao iniciar a leitura de um novo autor. Recomendo esta obra com toda a minha intensidade. A mãe que Ernaux retrata é, ao mesmo tempo, singular e universal — uma figura que contém a dureza e a ternura da maternidade em sua forma mais genuína e humana. E, ao fim, a única certeza que tenho é que estou indo abraçar minha mãe desesperadamente. “Ela morreu oito dias antes de Simone de Beauvoir. Ela gostava de dar aos outros mais do que receber. Será que escrever não seria uma forma de dar? Isto não é uma biografia, nem um romance, evidentemente, talvez alguma coisa entre a literatura, a sociologia e a história. Foi preciso que minha mãe — nascida num mundo dominado do qual ela desejava sair — se tornasse história para que eu me sentisse menos solitária e falsa no mundo dominador cheio de palavras e ideias no qual, seguindo o desejo dela, eu entrei.”

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