54ª leitura do ano.Em "O Livro do Gozo", Jéssica Ziegler de Andrade me conduz a um mergulho poético em um dos melhores livros de poesia sobre o gozo. O gozo está intrinsecamente ligado à falta. A falta é constitutiva do sujeito, uma vez que somos seres de linguagem e, portanto, falantes. A linguagem, ao mesmo tempo que nos permite simbolizar o mundo e nossas experiências, cria uma distância entre nós e o objeto de nosso desejo. Essa distância é a falta, que nos impulsiona a buscar incessantemente algo que nunca poderemos encontrar plenamente.
A maneira como a mulher é retratada na sociedade ocidental não só reflete os acontecimentos históricos relacionados às interações sociais e de poder em uma determinada cultura, mas também revela aspectos fundamentais de como o feminino é abordado. O modo como a sexualidade é convertida em maldição afetou as mulheres ao longo da história e é fruto de dominação e exploração.
A obra de Jéssica transcende a mera denúncia, propondo uma celebração do feminino em toda a sua complexidade. Ao explorar as nuances da sexualidade feminina, a autora nos convida a um mergulho no universo das sensações, dos desejos e das emoções que muitas vezes são negados ou reprimidos. A poesia de Jéssica é um grito de alerta; ela nada contra a correnteza do senso comum, não tem medo de explorar os aspectos mais sombrios e complexos da sexualidade feminina, revelando a força e a beleza que residem nas profundezas do inconsciente.
Como nessa poesia:
Um gozo é um barco
Quero a fuga pelos poros
a cura pelo corpo
um mapa do absurdo
perder critérios
cruzar hemisférios
Quero um plano insensato
um gozo ou um barco
para fugir do mundo.
A poesia de Jéssica é um convite à transformação. Ao nos confrontar com a realidade da opressão feminina, a autora nos oferece uma visão de futuro onde a mulher pode experimentar o gozo em toda sua plenitude, livre das amarras da culpa e do julgamento.
Amei a leitura e é uma das capas mais bonitas que eu tenho na minha estante. Vale a pena a leitura, recomendo para todos que querem se livrar das amarras do senso comum e da banalidade. Livro maravilhoso!